segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O DEUS DE EINSTEIN - Parte 02

A resposta de Einstein não foi confortadora para todos. Alguns judeus religiosos, por exemplo, observaram que Espinosa fora excomungado da comunidade judaica de Amsterdã em razão dessas convicções, e também fora condenado pela Igreja Católica, por garantia. “O cardeal O’Connell teria feito bem em não atacar a teoria de Einstein”, disse um rabino do Brorrx. “E Einstein teria feito melhor em não proclamar sua descrença num Deus que se ocupa com o destino e as ações dos indivíduos. Os dois deram opiniões sobre áreas fora da sua jurisdição.” Mesmo assim, a maioria das pessoas ficou satisfeita, concordasse plenamente ou não, pois conseguia compreender o que ele queria dizer. 

A ideia de um Deus impessoal, cuja mão se reflete na glória da Criação mas que não se imiscui na vida diária do ser humano, faz parte de uma respeitável tradição tanto na Europa como nos Estados Unidos. Ela se encontra em alguns dos filósofos prediletos de Einstein e, de modo geral, está de acordo com as convicções religiosas de muitos dos fundadores dos Estados Unidos, como Jefferson e Franklin.

Alguns crentes religiosos descartam as frequentes invocações feitas por Einstein de Deus como mera figura de linguagem. O mesmo fazem alguns não-crentes. Havia muitas expressões que ele usava, algumas jocosas, que iam desde der Herrgott (o senhor Deus) até der Alte (o Velho). Mas não era do estilo de Einstein falar de modo insincero a fim de parecer que estava se conformando à norma; muito pelo contrário. Assim, nós deveríamos lhe dar a honra de levarmos a sério suas palavras quando ele insiste, repetidas vezes, que essas expressões tão batidas não eram uma evasiva sutil, uma maneira semântica de disfarçar o fato de que ele era, na verdade, ateu.

A vida toda Einstein foi coerente ao rebater a acusação de ser ateu. “Há pessoas que dizem que não existe Deus”, disse ele a um amigo. “Mas o que me deixa mais zangado é que elas citam meu nome para apoiar essas ideias.”

Diferentemente de Sigmund Freud ou Bertrand Russell ou George Bernard Shaw, Einstein nunca sentiu o impulso de denegrir os que acreditam em Deus; em vez disso, costumava denegrir os ateus. “O que me separa da maioria dos chamados ateus é um sentimento de total humildade com os segredos inatingíveis da harmonia do cosmos”, explicou ele.

De fato, Einstein costumava ser mais crítico em relação aos que ridicularizavam a religião, e que pareciam carecer de humildade e do senso de deslumbramento, do que em relação aos fiéis. “Os ateus fanáticos”, explicou ele numa carta, “são como escravos que continuam sentindo o peso das correntes que jogaram fora depois de muita luta. São criaturas que — em seu rancor contra a religião tradicional como sendo o ‘ópio das massas’ — não conseguem ouvir a música das esferas.”

Einstein mais tarde se envolveu numa troca de ideias sobre esse tópico com um guarda-marinha das forças navais americanas a quem não conhecia pessoalmente. Era verdade, indagou o marinheiro, que Einstein fora convertido por um padre jesuíta e passara a acreditar em Deus? Absurdo, respondeu Einstein. Continuou dizendo que via a crença num Deus que era uma figura paternal como resultado de “analogias infantis”. Será que Einstein lhe permitiria, perguntou o marinheiro, citar a resposta dele em seus debates com os colegas do navio que eram mais religiosos? Einstein advertiu-o de que não simplificasse em demasia. “Você pode me chamar de agnóstico, mas eu não compartilho daquele espírito de cruzada do ateu profissional, cujo fervor se deve mais a um doloroso ato de libertação dos grilhões da doutrinação religiosa recebida na juventude”, explicou. “Prefiro a atitude de humildade que corresponde à debilidade da nossa compreensão intelectual da natureza e do nosso próprio ser.”

De que modo esse instinto religioso se relacionava à sua ciência? Para Einstein, a beleza da sua fé consistia no fato de que ela era a essência e a inspiração do seu trabalho científico, e não algo que entrasse em conflito com este. “O sentimento religioso cósmico”, disse ele, “é o motivo mais forte e mais nobre da pesquisa científica.”

Einstein mais tarde explicou como via a relação entre ciência e religião numa conferência sobre esse tópico no Seminário Teológico Unionista, em Nova York. O reino da ciência, disse, consiste em descobrir com exatidão o que acontece, mas não em avaliar os pensamentos e as ações humanas sobre o que deveria acontecer. A religião tem o mandato inverso. E, no entanto, esses dois tipos de esforços por vezes atuam juntos. “A ciência só pode ser criada pelos que estão totalmente imbuídos pela aspiração à verdade e à compreensão”, disse ele. “Contudo, esse sentimento brota da esfera da religião.”

Essa fala saiu na primeira página dos jornais, e a conclusão de Einstein, saborosa e concisa, ganhou fama: “A situação pode ser expressa por uma imagem: a ciência sem religião é manca; a religião sem ciência é cega”.

Mas havia um conceito religioso, prosseguiu Einstein, que a ciência não podia aceitar: uma divindade capaz de se imiscuir a seu bel-prazer nos acontecimentos da sua criação ou na vida das suas criaturas. “A causa principal dos atuais conflitos entre as esferas da religião e da ciência consiste nesse conceito de um Deus pessoal”, argumentou ele. Os cientistas buscam revelar as leis imutáveis que governam a realidade e, ao fazê-lo, têm de rejeitar a noção de que a vontade divina, e, aliás, também a vontade humana, desempenha um papel que violaria essa causalidade cósmica.

Essa crença no determinismo causal, inerente à visão científica de Einstein, entrava em conflito não só com o conceito de um Deus pessoal. Era ainda, ao menos na mente de Einstein, incompatível com o livre-arbítrio humano. Embora fosse um homem profundamente moral, por sua crença no determinismo estrito julgava difícil aceitar a ideia da escolha moral e da responsabilidade individual, que se encontra no cerne da maioria dos sistemas éticos.

Os teólogos judeus, bem como os teólogos cristãos, de maneira geral sempre acreditaram que as pessoas têm livre-arbítrio e são responsáveis por seus atos. Elas têm até a liberdade, como narra a Bíblia, de optar por desafiar os mandamentos de Deus, embora isso pareça entrar em conflito com a crença de que Deus é onisciente e todo-poderoso.
Einstein, por outro lado, acreditava, como Espinosa,{1030} que as ações de uma pessoa eram predeterminadas, assim como as de uma bola de bilhar, um planeta ou uma estrela.
“Os seres humanos, em seus pensamentos, sentimentos e atos, não são livres, mas estão presos pela causalidade do mesmo modo que as estrelas em seus movimentos”, afirmou Einstein em 1932, numa declaração à Sociedade Espinosa.

As ações humanas são determinadas, para lá do seu controle, tanto por leis físicas como por leis psicológicas, acreditava. Tal conceito ele extraiu também das suas leituras de Schopenhauer, a quem atribuiu, no credo de 1930, “No que acredito”, uma máxima deste teor:

Não acredito, em absoluto, no livre-arbítrio no sentido filosófico. Cada pessoa age não só sob pressão das compulsões externas, mas também de acordo com as necessidades internas. O dito de Schopenhauer: “Um homem pode fazer o que deseja, mas não pode mandar nos seus desejos” tem sido uma verdadeira inspiração para mim desde a juventude; é um consolo contínuo ante as dificuldades da vida. tanto minhas como alheias, e uma fonte infalível de tolerância.

O senhor acredita, perguntaram certa vez a Einstein, que o ser humano e um agente livre? “Não, sou determinista”, respondeu ele. “Tudo já está determinado, tanto o início como o fim, por forças sobre as quais não temos nenhum controle. Tudo está determinado, tanto para o inseto como para a estrela. Seres humanos, vegetais, poeira cósmica, todos nós dançamos conforme uma música misteriosa, entoada à distância por um músico invisível.”

Essa atitude deixava consternados alguns amigos, como Max Born, o qual julgava que ela destruía por completo os alicerces da moralidade humana. “Eu não consigo compreender como você pode combinar um universo inteiramente mecanicista com a liberdade do indivíduo ético”, escreveu ele a Einstein. “Para mim, um mundo determinista é absolutamente abominável. Talvez você tenha razão e o mundo seja, de fato, como você diz. Mas, no momento, ele não parece ser assim na física — muito menos no resto do mundo.”

Para Born, a incerteza da física quântica oferecia uma saída para esse dilema. Do mesmo modo que alguns filósofos da época, ele se apegou à indeterminação inerente à mecânica quântica para resolver “a discrepância entre a liberdade ética e as leis naturais estritas”. Einstein reconheceu que a mecânica quântica questionava o determinismo estrito, mas disse a Born que continuava acreditando neste, tanto na área das ações pessoais como na física.

Born explicou a questão à sua nervosa mulher, Hedwig, sempre ansiosa para discutir as ideias de Einstein. Ela disse a Einstein que, assim como ele, também era “incapaz de acreditar num Deus ‘que joga dados’”. Noutras palavras diferentemente do marido, ela rejeitava a visão da mecânica quântica de que o universo se baseia em incertezas e probabilidades. Mas, acrescentou Hedwiz “tampouco consigo imaginar que o senhor acredite — como me disse Max — que o seu conceito do ‘predomínio absoluto das leis’ significa que tudo é predeterminado —, por exemplo, se eu vou ou não vou mandar vacinar meus filhos. Isso significaria, ressaltou ela, o fim de toda a ética.

Na filosofia de Einstein, a forma de resolver essa questão era considera: livre-arbítrio algo útil, e até necessário, para uma sociedade civilizada, pois leva as pessoas a assumir a responsabilidade por seus atos. Agir como se cada um fosse responsável por seus atos teria o efeito, tanto psicológico como prático, de estimular as pessoas a agir de maneira mais responsável. “Sou compelido a agir como se existisse o livre-arbítrio”, explicou ele, “já que, se desejo viver numa sociedade civilizada, devo agir de modo responsável.” Podia até responsabilizar as pessoas por suas boas e más ações, já que essa é uma abordagem pragmática e sensata para a vida; mas ao mesmo tempo continuava a acreditar intelectualmente que as ações de cada um são predeterminadas. “Sei que, filosoficamente, um assassino não é responsável por seu crime”, disse, “mas prefiro não tomar chá com ele.”

Em defesa de Einstein, bem como de Max e Hedwig Born, deve-se notar que os filósofos, em todas as épocas, sempre lutaram, às vezes de maneira canhestra e sem grande sucesso, para reconciliar o livre-arbítrio com o determinismo e com um Deus onisciente. Se Einstein teve maior ou menor habilidade que outros ao lidar com esse nó, há um fato notório que deve ser observado: ele foi capaz de desenvolver e praticar uma forte moralidade pessoal, ao menos em relação à humanidade em geral ainda que nem sempre em relação a membros da sua família, que não foi prejudicada por todas essas especulações filosóficas insolúveis. “O empreendimento humano mais importante é a luta pela moralidade em nossas ações”, escreveu ele a um ministro protestante do Brooklyn. “Nosso equilíbrio interno e até nossa própria existência dependem disso. Só a moralidade em nossas ações pode dar beleza e dignidade à vida.”

O alicerce dessa moralidade, acreditava ele, consistia em elevar-se acima do “meramente pessoal” e viver de uma forma que beneficiasse a humanidade. Em certas ocasiões, era capaz de ser insensível com os mais próximos, o que mostra que, como o restante de nós, seres humanos, ele também tinha suas falhas. Porém, mais que a maioria das pessoas, dedicou-se sinceramente, e por vezes corajosamente, a ações que transcendiam os desejos egoístas, a fim de incentivar o progresso humano e a preservação das liberdades individuais. Era, de modo geral, um homem generoso, de génio bom, gentil e despretensioso. Em 1922, quando partiu para o Japão com Elsa, aconselhou as filhas dela sobre como levar uma vida moral. “Usem pouco para vocês mesmas”, disse, “mas dêem muito aos outros.”

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Autor: Walter Isaacson



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