domingo, 1 de janeiro de 2017

O DEUS DE EINSTEIN - Parte 01

Certa noite em Berlim, Einstein e a mulher estavam num jantar festivo quando um convidado expressou sua crença na astrologia. Einstein ridicularizou a ideia como superstição pura. Outro convidado entrou na conversa e passou a insultar a religião. A crença em Deus, insistiu ele, é uma espécie de superstição, também.
Nesse ponto, o anfitrião tentou calá-lo mencionando o fato de que até Einstein nutria crenças religiosas. “Não é possível!”, disse o convidado cético, virando-se para Einstein a finde perguntar se ele era, de fato, religioso. “Sim, pode-se dizer que sim”, respondeu Einstein calmamente. “Tente penetrar, com nossos limitados meios, nos segredos da natureza, e descobrirá que. por trás de todas as leis e conexões discerníveis, permanece algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração por essa força além de qualquer coisa que podemos compreender é a minha religião. Nesse sentido eu sou, de fato, religioso.”

Quando criança, Einstein passou por uma fase de êxtase religioso; depois se rebelou contra ela. Nas três décadas seguintes, em geral não se pronunciava muito sobre esse tópico. Mas, ao chegar aos cinquenta anos, começou a articular com mais clareza — em vários ensaios, entrevistas e cartas — sua apreciação cada vez mais profunda da sua herança judaica e, em separado, sua crença em Deus, embora se tratasse de um conceito bastante impessoal e deísta de Deus.

Decerto, havia muitas razões para isso, além da propensão natural, que costuma ocorrer por volta dos cinquenta anos, para refletir sobre a eternidade. A afinidade que ele sentia por outros judeus, em virtude da contínua opressão anti-semita, despertou alguns de seus sentimentos religiosos. Mas, ao que tudo indica, as convicções dele provinham sobretudo do sentimento de deslumbramento com a ordem transcendental que descobriu por meio de seu trabalho científico.

Seja apreciando a beleza de suas equações sobre o campo gravitacional, seja rejeitando a incerteza da mecânica quântica, Einstein demonstrava profunda fé na ordem do universo. Foi o que serviu de base para sua visão científica — e também para sua visão religiosa. “A mais elevada satisfação de um cientista”, escreveu ele em 1929, é chegar à compreensão “de que o próprio Deus não poderia ter organizado essas conexões de nenhuma outra maneira a não ser da maneira que realmente existe, assim como não estaria em Seu poder fazer com que 4 fosse um número primo.”

Para Einstein, como para a maioria das pessoas, a crença em algo maior que ele mesmo se tornou um sentimento definidor. Produzia nele uma mistura de confiança e humildade, com um toque de doce simplicidade. Dada sua predisposição para ser autocentrado, essas eram graças positivas. Juntamente com seu senso de humor e sua autoconsciência que beirava a timidez, essas qualidades o ajudaram a evitar a presunção e o pedantismo que poderiam ter se apossado da mente mais famosa do mundo.

Seus sentimentos religiosos de deslumbramento perante o universo e também de humildade formaram a base do seu senso de justiça social. Esta o levava a detestar as pompas da hierarquia e da distinção de classes, a fugir do consumo excessivo e do materialismo, e a se esforçar em prol dos refugiados e dos oprimidos.

Pouco depois de completar cinquenta anos, Einstein deu uma notável entrevista, em que revelou mais sobre o seu pensamento religioso do que jamais fizera. A entrevista foi concedida a um poeta e propagandista, pomposo porém adulador, chamado George Sylvester Viereck. Nascido na Alemanha, Viereck emigrou para os Estados Unidos quando criança e passou o resto da vida escrevendo poemas de um erotismo exuberante, entrevistando grandes homens e expressando seu complexo amor por sua pátria.

Depois de conseguir entrevistar celebridades que iam desde Freud até Hitler e o Kaiser, posteriormente publicadas num livro intitulado Visões de Grandes Homens, ele conseguiu marcar uma conversa com Einstein em seu apartamento em Berlim. Lá, Elsa serviu-lhe suco de framboesa e salada de frutas; os dois homens então subiram para o escritório de eremita de Einstein. Por razões que não ficaram bem claras, Einstein supôs que Viereck fosse judeu. Na verdade. Viereck tinha orgulho de descender da família do Kaiser; mais tarde, tornou-se simpatizante do nazismo e foi preso nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra por fazer propaganda a favor da Alemanha.
Viereck começou indagando a Einstein se ele se considerava alemão ou judeu. “É possível ser as duas coisas”, respondeu Einstein. “O nacionalismo é uma doença infantil, o sarampo da humanidade.”

Os judeus deveriam tentar se assimilar? “Nós, judeus, temos procurai: com demasiado empenho sacrificar nossas idiossincrasias a fim de nos conformarmos à norma.”
Até que ponto o senhor é influenciado pelo cristianismo? “Quando criança, recebi instrução tanto sobre a Bíblia como sobre o Talmude. Sou judeu, mas sou fascinado pela luminosa figura do Nazareno.”

O senhor aceita a existência histórica de Jesus? “Sem dúvida! Quem pode ler os Evangelhos sem sentir a presença real de Jesus? Sua personalidade pulsa em cada palavra. Não há nenhum mito que esteja imbuído de tanta vida.”

O senhor acredita em Deus?

Não sou ateu. O problema aí envolvido é demasiado vasto para nossas mentes delimitadas. Estamos na mesma situação de uma criancinha que entra numa biblioteca repleta de livros em muitas línguas. A criança sabe que alguém deve ter escrito esses livros. Ela não sabe de que maneira, nem compreende os idiomas em que foram escritos.
A criança tem uma forte suspeita de que há uma ordem de mistérios na organização dos livros, mas não sabe qual é essa ordem. É essa, parece-me.. a atitude do ser humano, mesmo do mais inteligente, em relação a Deus. Vemos o universo maravilhosamente organizado e que obedece a certas leis; mas compreendemos essas leis apenas muito vagamente.

Seria esse um conceito judaico de Deus? “Sou determinista. Não acredito no livre-arbítrio. Os judeus acreditam no livre-arbítrio. Eles acreditam que cada homem faz sua própria vida. Eu rejeito essa doutrina. Nesse aspecto, não sou judeu.”

Será esse o Deus de Espinosa? “Sou fascinado pelo panteísmo de Espinosa, mas admiro ainda mais sua contribuição para o pensamento moderno, pois ele foi o primeiro filósofo a lidar com o corpo e a alma como uma só entidade, e não como duas coisas separadas.”
Como chegou às suas ideias? “Sou artista o suficiente para inspirar-me livremente na minha imaginação. A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação abrange o mundo inteiro.”

O senhor acredita na imortalidade? “Não. E uma vida é suficiente para mim.”

Einstein tentou expressar esses sentimentos claramente, tanto para si mesmo como para todos aqueles que desejavam obter dele uma resposta simples acerca da sua fé.

Assim, no verão de 1930, entre seus passeios de barco e suas reflexões em Caputh, escreveu um credo, “No que acredito”. Concluía com uma explicação sobre o que tinha em mente quando dizia ser religioso:

A emoção mais bela que podemos experimentar é o sentimento do mistério. É a emoção fundamental que está no berço de toda a verdadeira arte e ciência. Aquele que desconhece essa emoção, aquele que não consegue mais se maravilhar, ficar arrebatado pela admiração, é como se estivesse morto; é uma vela que foi apagada. Sentir que por trás de qualquer coisa que possa ser experimentada há algo que nossa mente não consegue captar, algo cuja beleza e solenidade nos atinge apenas indiretamente: essa é a religiosidade. Nesse sentido, e apenas nesse sentido, sou devotamente religioso.

Considerado evocativo, até inspirador, pelo público, o texto foi reimpresso repetidas vezes e traduzido para as mais diversas línguas. Mesmo assim — o que não é de surpreender —, não satisfez os que desejavam uma resposta simples e direta à pergunta: “O senhor acredita em Deus?”. Assim, tentar levar Einstein a responder a essa pergunta de modo conciso passou a substituir o frenesi anterior de tentar levá-lo a explicar a relatividade numa só frase.

Um banqueiro do Colorado escreveu-lhe dizendo que já conseguira obter respostas de 24 ganhadores do prémio Nobel à pergunta “O senhor acredita em Deus?”, e pedia a Einstein que também respondesse. “Não consigo conceber um Deus pessoal que tenha influência direta nas ações dos indivíduos ou que julgue as criaturas da sua própria criação”, rabiscou Einstein em resposta. “Minha religiosidade consiste numa humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no pouco que conseguimos compreender sobre o mundo passível de ser conhecido. Essa convicção profundamente emocional da presença de um poder superior racional que se revela nesse universo incompreensível forma a minha ideia de Deus.”

Uma menina da sexta série de uma escola dominical de Nova York fez a pergunta de uma forma ligeiramente diferente. “Os cientistas rezam?”, indagou ela. Einstein levou-a a sério. “A pesquisa científica baseia-se na ideia de que tudo o que acontece é determinado por leis da natureza, e isso também vale para ai ações das pessoas”, explicou. “Por esse motivo, um cientista não se sentiria inclinado a acreditar que os fatos podem ser influenciados por uma oração, isto e. por um desejo dirigido a um Ser sobrenatural.”

Isso não significava, contudo, que não existisse nenhum ser Todo-poderoso, nenhum espírito maior que nós mesmos. Ele continuou a explicar à garota:

“Qualquer pessoa que se envolve seriamente no trabalho científico acaba convencida de que existe um espírito que se manifesta nas leis do universo — um espírito vastamente superior ao espírito humano, em face do qual nós, com nossos modestos poderes, temos de nos sentir humildes. Desse modo, a pesquisa científica leva a um sentimento religioso bem especial, que é, de fato, muito diferente da religiosidade de uma pessoa mais ingênua”.

Para alguns, apenas uma crença bem clara num Deus pessoal, que controla nossa vida diária, serviria como resposta satisfatória, e as ideias de Einstein sobre um espírito cósmico impessoal, assim como suas teorias da relatividade mereciam ser desmascaradas. “Duvido seriamente que o próprio Einstein sair: aonde quer chegar”, disse William Henry O’Connell, cardeal de Boston. Mas uma coisa parecia clara: era algo sem Deus. “O resultado de todas essas dúvidas e especulações nebulosas acerca do tempo e do espaço é um manto sob o qual se esconde o fantasma assustador do ateísmo.”

Esse ataque público de um cardeal motivou o rabino Herbert S. Goldstein destacado líder dos judeus ortodoxos de Nova York, a enviar um telegrama bastante direto: “O senhor acredita em Deus? Ponto. Resposta paga. 50 palavras”. Einstein usou apenas a metade desse número para escrever o que se tornou a versão mais famosa de uma resposta que ele deu muitas vezes: “Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia bem-ordenada de tudo o que existe; mas não acredito num Deus que se ocupe com o destino e as ações da humanidade”.


-------------------

Autor: Walter Isaacson



Nenhum comentário: