domingo, 15 de janeiro de 2017

A CAÇA ÀS BRUXAS

Dor sem conselho, saco sem fundo, febre contínua que nunca termina, besta insaciável, folha levada pelo vento, bastão vazio, louca desvairada, mal sem nenhum bem, em casa um demônio, na cama uma vadia, na horta uma cabra, imagem do Diabo.

Em geral, falar de caça às bruxas significa voltar à época medieval. A perseguição em massa e os massacres, no entanto, continuaram muito depois desse período. As grandes ondas repressivas contra as bruxas e os hereges aconteceram, na verdade, de 1480 a 1520, período ao qual sucederam uma relativa pausa e uma nova onda de perseguições de 1580 a 1670.

Aquela que na Idade Média fora uma guerra aberta contra populações inteiras que haviam escolhido uma vida comunitária (como os cátaros e dulcinistas) se transformou em uma perseguição de estilo policial em larga escala destinada a extirpar a erva daninha da desobediência.

A legislação cristã logo passou a cuidar da bruxaria, associando-a ao paganismo e considerando-a uma forma de heresia. "A motivação era tipicamente teológica: quem usa as artes da magia rejeita o poder livre e libertador do Deus de Jesus, enquanto tenta estabelecer uma espécie de domínio sobre realidades terrenas [e] sobre a vida humana em si." (Benazzi, D'Amico, 1998, p. 258-9.)

Os primeiros mandantes do fenômeno eram muito céticos acerca da real existência dos poderes sobrenaturais das bruxas e magos. O Cânone Episcopal, um documento eclesiástico do século XIX, diz: "Não nos esqueçamos das mulheres desventuradas que se ofereceram a Satanás, sessões de encantamento e fantasmas de origem diabólica, afirmaram terem montado animais durante a noite junto à deusa paga Diana e fizeram isso com várias outras mulheres... Muitas se deixaram enganar por essas coisas e acham que tudo é verdade, afastando-se da verdadeira fé [...] Mas quem pode ser tão tolo a ponto de crer que tudo isso acontece [...] e corporalmente?"
Enfim, quem praticava bruxaria cometia um pegado grave, mas as artes mágicas em si não representavam um perigo.

A partir do século XI e até a metade do XIII, a atenção da Igreja se concentrava mais nas heresias, como as dos cátaros e valdenses, e o mundo do ocultismo foi, em parte, ignorado.

Bruxaria e heresia
As coisas começaram a mudar depois do nascimento da Inquisição. O deslocamento da perspectiva entre as primeiras e brandas perseguições e as sucessivas, mais sistemáticas, é fundamental. Segundo essa nova visão, na verdade, o Demônio se torna um ser físico, que pode possuir e ter aliados na Terra, que tem um exército próprio e uma Igreja. A batalha entre o bem e o mal se concretiza transformando-se em uma guerra em sentido físico, além do metafísico.

Em 1258, Alexandre IV condenou as práticas mágicas. Em 1320, João XXII encarregou os inquisidores de Toulouse de intervir contra os bruxos. Em 1436, o juiz Claude Tholosan declarou que os magos e bruxas não tinham direito a indulgências da Igreja e considerou suspeitas até práticas populares aparentemente inócuas, como a colheita das plantas durante a festa de Santo Antônio. Em 1451, Nicolau V exortou os inquisidores a punir os adivinhos mesmo quando não houvesse uma condição evidente de heresia: a Inquisição podia, assim, atingir também a superstição popular.3 Por volta do final do século XV, o bispo de Paris determinou a excomunhão a qualquer um que lesse as mãos.
Durante todos os séculos XIV e XV, sucederam-se, com preocupante aumento, vários tratados sobre bruxaria e intervenções de juristas sobre o assunto. Será dito que, no instante em que aceitam ter relações com o Demônio, as bruxas se mancham com o crime de heresia. Ou melhor, elas chegam a constituir uma verdadeira seita que luta pela destruição da Igreja.

Aos hereges também são atribuídos malefícios e pactos diabólicos. Os Templários foram acusados de heresia, bruxaria e de adoração a um ídolo chamado Bafometo. Os valdenses de Arras, processados durante o século XV, confessaram, sob tortura, a filiação a uma seita de adoradores do diabo. Eles iam voando aos sabás, onde abjuravam a religião cristã e blasfemavam contra Deus, a Trindade e Nossa Senhora.

Os cátaros foram acusados de ter o nome derivado de Cato, demônio que adoravam.

O objetivo de tais comparações é claro: se as bruxas eram por definição hereges, então hereges também eram os magos. Assim, bruxas e hereges constituíam um único grande inimigo comum do poder espiritual e do civil. Sem contar que o rótulo de "mago" contribuía para queimar a terra em volta dos pregadores heréticos e tornava mais fácil atiçar o ódio do povo contra eles.
A bula papal Summis desiderante affectibus, promulgada por Inocêncio VIII, em 5 de dezembro de 1484, marcou a data de início daquilo que se tornou um verdadeiro extermínio em massa de mulheres e homens acusados de bruxaria. Nesse documento, o papa, alarmado pelas notícias provenientes do norte da Alemanha, onde parecia que os cultos satânicos e a bruxaria tinham muitos adeptos, dava aos inquisidores plenos poderes para extirpar o fenômeno.
Dois anos depois, foi o poder leigo que interveio. O imperador Maximiliano da Áustria emanou uma ordem na qual convidava todos os bons católicos a ajudar os inquisidores em sua obra.

O Martelo das feiticeiras
No mesmo ano, saiu o Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras), um verdadeiro tratado reproduzido através da nova técnica da prensa inventada por Gutenberg, que descrevia por completo o mundo das bruxas, seus malefícios, como reconhecê-las e como conduzir os interrogatórios. A tese do Malleus era que a bruxaria existia e que era uma forma de heresia, assim como negar sua existência era um comportamento herético. Seus autores, Krämer (vulgo Institoris) e Spengler, são dois teólogos dominicanos. Krämer, em especial, era um conhecido e incansável inquisidor internacional, famoso por perseguir os valdenses, hussitas e as bruxas. Sua conduta na Alemanha meridional atraiu para si o desprezo dos eclesiásticos locais e o ódio da população, que chegou a um passo da revolta. Ele atuou também na diocese de Bressanone, mas o bispo Georg Golser o afastou em razão de sua crueldade e arbitrariedade, que mais uma vez contribuíram para atrair a ira do povo. O Martelo das feiticeiras, que foi impresso até 1669, tornou-se um verdadeiro best-seller na época.

Muitos outros "caçadores de bruxas" escreveram dissertações sobre o assunto, dentre os quais Jean Bodin, obstinado inquisidor e perseguidor que, por sua vez, foi acusado de heresia, e Henry Boguet, inquisidor suíço que entrou para a história por pedir a condenação à morte de algumas crianças acusadas de bruxaria.

As áreas mais atingidas pela caça às bruxas foram Artois, Flandres, Hinaut, Cambrésis, Brabante, Luxemburgo, Lorena, Renânia, as regiões do sul da Alemanha, a Borgonha, os Países Bascos e o Piemonte.

De certo ponto de vista, a caça às bruxas tornou-se uma gigantesca guerra do poder masculino contra as mulheres e contra as últimas formas de matriarcado.
Por exemplo, foi tirado do gênero feminino o "poder" de curar os males e assistir no parto, entregando-os ao monopólio da casta masculina dos médicos. O Malleus Maleficarum afirma claramente que "ninguém prejudicou mais a Igreja do que as parreiras". Não é preciso se esforçar muito para encontrar na literatura, na teologia, mas também nos tratados de medicina da época, afirmações de forte desprezo, se não de ódio, às mulheres. Um exemplo de Laurent Joubert, médico do século XVI, afirma: "Por si mesmo indiferente é o sêmen... este muitas vezes degenera na fêmea por causa da frieza e da umidade... e pela abundante presença de sangue menstrual cru e indigesto."8 Por outro lado, Tommaso Campanella escreveu: "As mulherzinhas, que consomem um péssimo alimento, ou pelo sangue menstrual, ou pelos excrementos retidos no útero tomado de vapores da concepção, acabam perturbadas e realizando atos para receberem os demônios."

Homens e personalidades de alta estirpe também foram condenados à fogueira, mas isso não impede que a grande maioria das vítimas fosse de mulheres pobres, muitas vezes à margem da sociedade. Às vezes, a figura da bruxa parteira/curandeira se confundia com a da prostituta. Então, reaparecia um personagem social de grande poder que ainda possuía a linfa das sacerdotisas dos cultos matriarcais. Não sabemos quanto disso era real e quanto era uma fantasia dos inquisidores. É verdade, no entanto, que, em algumas localidades (por exemplo, nos territórios eslavos), os cultos matriarcais que remontavam a quatro, cinco mil anos antes de Cristo sobreviveram por muito tempo, até depois do século XVII, às vezes camuflados de ritos cristãos, às vezes praticados pelo povo às escondidas — como aconteceu por muito tempo com os ritos matriarcais dos escravos negros nas Américas.

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Autor: Jacopo Fo



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