terça-feira, 9 de agosto de 2016

USO ABUSIVO DE DROGAS

Uma característica marcante da decadência dos costumes no mundo atual é o uso abusivo de drogas; ele é cultivado pelos seguidores do Hedonismo (do grego, hedoné, prazer, + -ismo), uma doutrina que reverencia o prazer físico individual e imediato. Essa doutrina, não deve ser confundida com o Epicurismo cujo autor, o filósofo grego Epicuro, – um homem de virtude exemplar –, já advertia na época (341-270 a. C.), que prazer não significava gozo material, mas cultura do espírito e prática da virtude.

Para evitar preconceitos e não estigmatizar pessoas, atualmente a palavra vício tem sido substituída pela expressão uso abusivo. Dentro desse conceito, o mesmo vem acontecendo com o termo médico distúrbio que os profissionais da saúde têm substituído por transtorno para causar menor impacto psicológico no doente que faz uso abusivo de drogas. Porém, essas substituições em nada alteram os antigos conceitos de vício e de distúrbio. Pura questão de semântica, nada mais.

O termo droga originou-se da palavra droog que, em holandês antigo, significa folha seca pois, na época, quase todos os remédios eram feitos à base de vegetais. As drogas usadas abusivamente pertencem à classe dos psicotrópicos; a maioria deles é usada como medicamento e receitada por médicos; porém, alguns – conhecidos simplesmente como drogas –, possuem características específicas, são ilícitos, usados abusivamente e, geralmente, auto-administrados.

O vício por drogas é um dos maiores problemas que o mundo atual vem enfrentando. Além dos óbvios prejuízos físicos e psicológicos que esse distúrbio induz, ele é também um importante causador de doenças. Alcoólatras são propensos à cirrose hepática; fumantes são suscetíveis ao câncer de pulmão; e, viciados em heroína, disseminam AIDS ao compartilhar agulhas. Nos Estados Unidos, o impacto desse vício na saúde e na produtividade é estimado em mais de 500 bilhões de dólares por ano, transformando-o num dos problemas mais sérios da sociedade. Se a definição de vício for ampliada para incluir outras formas de comportamento compulsivo-patológico, como o jogo, os custos são ainda maiores.

Seria hipocrisia falar sobre as drogas sem mencionar as sensações prazerosas que elas proporcionam. Se não for por prazer, como explicar o fato de cerca de 200 milhões de pessoas no mundo (cerca de 5% da população global entre 15 e 64 anos) terem consumido pelo menos uma delas em 2004, como consta no relatório anual sobre drogas da Organização das Nações Unidas (World Drug Report 2005)?

Na realidade, existem motivos de sobra para querer experimentá-las, seja pelo desafio à proibição, por curiosidade de experimentar um estado alterado de consciência, pela possibilidade de esquecer dos problemas em meio a uma viagem psicodélica, pela sensação de relaxamento causada por um baseado (cigarro de maconha), pela energia para encarar longas e exaustivas jornadas de trabalho proporcionada pela cocaína, pelo incitamento sensorial causado pelo ecstasy, etc.

Mas seria também uma total falta de senso não enfatizar o risco que esse prazer envolve; muito freqüentemente seu custo é a própria vida do usuário como mostram os dados da Organização Mundial de Saúde: todos os anos, 0,4% da população mundial (200 mil pessoas) perdem seu corpo físico vitimados pelo uso abusivo de drogas.

Nosso objetivo nesse artigo é analisar teorias que explicam a causa do vício por drogas. No entanto, algumas sugestões de leitura sobre as drogas e seus efeitos podem ser encontradas na Bibliografia. (ver Leituras adicionais sobre drogas).

Já de longa data os cientistas sabem que o prazer e a euforia produzida pelas drogas resulta da ativação que elas provocam no Sistema Cerebral de Recompensa (SCR): um circuito complexo de neurônios cuja finalidade fisiológica é produzir uma sensação de bem estar (ou euforia) após a satisfação dos instintos de conservação e de reprodução.

Na escala zoológica as características do sistema nervoso são muito semelhantes. As similaridades são de tal ordem que grande parte da neurociência foi desenvolvida usando três tipos de animais experimentais: um verme subterrâneo de um milímetro de comprimento chamado Caenorhabditis elegans, o rato, e a Drosófila – uma mosca que costuma voar sobre frutas maduras.

Muitas vezes, até mesmo as substâncias químicas (os neurotransmissores) que comunicam as células nervosas (os neurônios) no verme, na mosca e em mamíferos como o rato são praticamente as mesmas. O SCR sob o ponto de vista evolucional é uma estrutura muito antiga; e, de um modo rudimentar existe até mesmo no verme Caenorhabditis elegans.

Partindo dessas informações, os pesquisadores procuraram verificar se o rato era capaz de consumir por conta própria as mesmas drogas das quais os humanos tendem a se tornar dependentes.

Os experimentos eram feitos em animais que estavam em gaiolas individuais e tinham uma cânula inserida na veia; eles eram treinados a acionar três alavancas: numa, eles recebiam uma dose de droga por via endovenosa; numa outra, soro fisiológico ao invés da droga e, ao apertar a terceira alavanca recebiam uma porção de ração.

Em poucos dias, os animais estavam treinados a se auto-administrar cocaína, heroína, anfetamina e outras drogas que causam dependência em humanos.

Depois de certo tempo – no entender dos cientistas –, esses animais também acabam tendo certos comportamentos semelhantes aos de humanos viciados: eles consomem drogas em detrimento de atividades fisiológicas como comer e dormir, chegando até a morrer de cansaço ou subnutrição; passam a maior parte do tempo em que se encontram acordados, acionando centenas de vezes a alavanca para conseguir mais droga mesmo que isso signifique um único sucesso; tendem a permanecer na área da gaiola onde está a alavanca que pressionada injeta droga fazendo lembrar assim a vontade irrefreável sentida pelos humanos ao verem à parafernália associada à droga ou até mesmo os locais onde a consumiram, etc.

Quando a droga é retirada, os animais logo param de trabalhar pela satisfação química. Mas não esquecem o prazer. Um rato abstêmio – até mesmo por meses – vai retornar imediatamente ao comportamento de pressionar a alavanca se receber apenas uma dose mínima de cocaína ou se for colocado numa gaiola que ele associe à droga.

Além disso, situações psicologicamente estressantes, como um choque periódico inesperado nas patas, fazem os ratos retornarem imediatamente às drogas. Estímulos similares em humanos viciados – exposição a doses baixas da droga, imagens associativas e estresse – também deflagram a sensação de necessidade extrema e as recaídas.

Através desse esquema de auto-administração associado à técnica de mapeamento cerebral, os cientistas chegaram à conclusão que as drogas agem se apropriando do SCR e o estimulam com maior intensidade e persistência do que qualquer recompensa fisiológica (alimentação e sexo, por exemplo).

O vício de drogas se inicia com o aparecimento de dois sintomas: a Tolerância e a Dependência. Na Tolerância, o usuário é obrigado a aumentar gradativamente a freqüência do uso da droga para manter constante sua euforia. Porém, é a Dependência o sintoma fundamental do vício. A tolerância que a precede funciona como um sinal de alerta cabendo porém ao usuário a decisão final de caminhar para a dependência se entregando ao vício. Em outras palavras, é o mau uso do livre-arbítrio do usuário que o leva ao vício.

A Dependência é caracterizada pelo desejo compulsivo por drogas que o viciado é incapaz de controlar; em alguns casos, quando o acesso à droga é interrompido, a dependência se manifesta através de reações físicas graves e dolorosas – a chamada Síndrome de Abstinência.

O pensamento, o sentimento e o livre-arbítrio são funções rudimentares nos animais irracionais; elas se manifestam quando impelidas pelos instintos e são exercidas pelo cérebro que é órgão do Espírito; é porém completamente impossível que ele as produza. (Visconde de Sabóia, no livro A vida psíquica do homem; ver bibliografia).

Não é de se estranhar, portanto, que a dependência – marca registrada do vício –, não tenha ocorrido no rato treinado a usar drogas pois esse fenômeno está intimamente ligado ao livre-arbítrio, ao querer, à vontade, enfim.

Esse estudo sobre o efeito das drogas em ratos foi feito em meados do século passado; suas conclusões serviram de base para a neurociência responsabilizar o cérebro pelo vício das drogas.

E, apesar de já estarmos em pleno século 21, esse mesmo mecanismo é ainda defendido pelos neurocientistas. No entanto, eles agora podem obter dados mais precisos investigando diretamente o cérebro humano com o auxílio de técnicas não-invasivas como a ressonância magnética funcional e a tomografia por emissão de pósitrons.

Confirmaram assim que circuitos neuronais mais complexos porém equivalentes àqueles detectados em ratos, controlam também em humanos, tanto as recompensas fisiológicas como as relacionadas com as drogas.

Outros achados, porém, vêm desafiando os pesquisadores que não encontram para eles explicações lógicas, e muitos detalhes continuam sendo ainda um mistério. Mas com certeza eles seriam mais facilmente desvendados se a ciência médica que tão brilhantemente vem estudando os efeitos das drogas no cérebro procurasse determinar com o mesmo afinco e dedicação qual a causa responsável por esses efeitos.

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Fonte: Gazeta do Racionalismo Cristão
Por Glaci Ribeiro da Silva



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