quarta-feira, 10 de agosto de 2016

RITO E PALAVRA

O formalismo das igrejas caracteriza-se principalmente pelos seus rituais. Mas todo rito implica o uso da palavra. Trata-se de uma conjugação de dois sistemas complementares de comunicação. A eles se junta o instrumento, na explicação clássica da evolução humana. Foi graças ao rito e à palavra que o homem ascendeu do primata ao sábio. Mas, para dar mais alcance ao processo de comunicação, o homem teve de inventar o instrumento. O fogo, a fumaça, penas de aves nas árvores, estacas no chão foram os precursores de todos os meios de comunicação à distância de que hoje nos orgulhamos. Mas pouca gente sabe, além dos círculos restritos de especialistas, que os animais também se utilizam de ritos e até mesmo de palavras em seus processos de comunicação. No tocante aos instrumentos, eles os trazem no próprio corpo, o que não impede que animais superiores se utilizem também de instrumentos naturais, como pedras e varas. Remy Chauvin, biólogo e entomólogo francês da atualidade, em seu livro Les Societés Animales, oferece-nos abundantes informações sobre este assunto.

A teoria da evolução criadora, de Henri Bergson, propõe-nos a tese da infiltração do impulso vital na matéria em duas direções: uma que leva ao desenvolvimento dos insetos sociais, outra que resulta no aparecimento das sociedades humanas. Chauvin chega mesmo a referir-se à civilização das abelhas, advertindo naturalmente que se trata de civilização de insetos e não humana. Ortega y Gasset discorda do uso do termo social para os insetos, mas Chauvin, que pesquisou o problema a fundo, não encontra explicação para o fato de não haverem os insetos sociais alcançado o plano do pensamento criador. Chega mesmo a supor que talvez em outro planeta o tenham feito. Tudo isso pode ser pouco lisonjeiro para o orgulho humano, mas nem por isso deixa de ser significativo para os estudiosos da evolução humana na terra. Chauvin é diretor de pesquisas do Instituto de Altos Estudos de Paris. Menciono esse dado da sua ficha para mostrar a sua qualificação científica.

O que nos interessa neste problema é verificar, através de dados científicos, que o formalismo religioso, como o social e o das chamadas sociedades ocultas não provêm de uma revelação divina, mas do impulso vital que, passando através das espécies animais, projetou-se e desenvolveu-se no homem. O sacerdote que se paramenta para uma cerimônia religiosa, o maçom que veste os seus símbolos para uma sessão da loja, o universitário que enverga a sua beca para a formatura talvez não saibam que repetem processos antiquíssimos – evidentemente refinados pela tradição humana –, que procedem de ritos animais de milhões de anos antes da aparição do homem no planeta. Isso pode desapontar a nossa vaidade, mas servirá para nos lembrar a humildade. Não somos seres privilegiados na Terra. Somos os últimos rebentos de uma evolução multimilenar daquilo que, no espiritualismo, chama-se princípio inteligente, o espírito (força vital) que estrutura a matéria e através dela se desenvolve, despertando suas potencialidades ocultas e fazendo-as passar de potência a ato, de possibilidade a realidade.

Num trabalho curioso sobre a origem dos rituais na Igreja e na Maçonaria, Helena Blavatsky explica a procedência agrária dos ritos principais das religiões e das ordens ocultas. Os estudos de James Frazer, François Berge, René Hubert e outros mostram a relação direta dos ritos humanos com os ritmos da Natureza: a sucessão dos dias e das noites, dos anos, das estações, das gerações. Esses ritmos naturais parecem refletir-se nos mecanismos da vida em formação e da inteligência em desenvolvimento. 

O instinto de imitação produz os ídolos grotescos das tribos e mais tarde as imagens artísticas das igrejas, enriquecidas pela imaginação criadora. Pestalozzi tinha razão em dividir as religiões em duas categorias: as animais e as sociais, que correspondem às primitivas e às civilizadas. Nas primeiras ainda imperam os instintos animais, nas segundas as forças centrípetas da aglutinação social, gerando o sócio-centrismo das culturas antigas. Todas essas religiões são de elaboração telúrica, ligadas aos ritmos da terra. Mas Pestalozzi, [...] admitia uma religião superior, desligada dos elementos materiais, a que chamava apenas de Moralidade, para não confundi-la com as anteriores. Essa a religião espiritual que seu discípulo iria formular, com base nas revelações dos espíritos. Nela, por ser espiritual, não há ritos nem mitos, nem sacerdotes nem altares, nem mesmo dogmas de fé, pois a religião espiritual se fundamenta na razão e se liberta dos ritmos telúricos que impregnam a emotividade humana. Bergson colocou o mesmo problema em seu estudo sobre as fontes naturais da moral e da religião.

Passar do rito à palavra é rodar no mesmo círculo. Ambos pertencem ao campo da linguagem. Quando falamos de linguagem abrangemos todas as formas de expressão. Se perguntarmos como nasceu a linguagem, a resposta nos leva à mesma origem do rito. A diferença é apenas de forma. Enquanto o rito pertence ao campo da mímica, da gesticulação e portanto das expressões por meio de sinais corporais, a palavra pertence ao campo do som, da voz articulada. Por isso, a partir das pesquisas de Pavlov sobre psicologia animal e da formulação teórica de Watson sobre a psicologia do comportamento (Behaviorismo) predominou a tese da linguagem corporal, segundo a qual não falamos apenas com palavras, mas também com os movimentos do corpo. Não obstante, a palavra conserva o domínio da expressão do pensamento, tendo a mímica e a gesticulação como elementos acessórios de expressão. Não importa que a mímica ou a atitude de quem fala possa, não raro, modificar o própria sentido da palavra. No centro do processo de comunicação permanece a palavra como seu elemento essencial.

O problema da origem da palavra confunde-se com o da origem da mímica e do rito. Se apontamos com o dedo um objeto estamos nos referindo a ele. A palavra faz o mesmo: refere-se a um objeto. Surgiu, portanto, com o desenvolvimento da inteligência e a necessidade de comunicação. Cada palavra é um signo, um sinal, um gesto oral. Não apareceu milagrosamente na Terra, mas pelo esforço do homem na elaboração dos seus instrumentos de comunicação. As religiões formalistas dão à palavra um caráter divino e consideram os textos religiosos como a Palavra de Deus. Mas é evidente que Deus, o Ser Absoluto, não necessita dos meios relativos de comunicação de que necessitamos. [...] A palavra de Deus, ou seja, a sua forma de expressão, teria de ser ainda muito mais complexa e rica.

Psicologicamente podemos figurar assim o mecanismo da palavra: temos uma sensação provocada por estímulo exterior ou interior, essa sensação produz em nosso íntimo, em nossa afetividade, uma emoção e em nossa vontade uma volição, um impulso de expressá-la, que provoca na mente uma idéia daquilo que sentimos, um conceito que se traduz em um ou vários sons articulados que constituem uma palavra. Se quisermos gravar essa palavra temos de recorrer às letras de um alfabeto. Servimo-nos assim da linguagem oral e da linguagem escrita para dizermos alguma coisa. O pensamento foi traduzido em sons e depois em letras. Como podemos aceitar que a palavra de Deus esteja num livro? Isso equivale a submeter Deus ao nosso condicionamento humano.

Por outro lado, costumamos dizer que a palavra é criadora, tem o poder de criar. Por isso acredita-se que Deus criou o mundo pela palavra. Trata-se de uma alegoria, de uma simples imagem, mas as igrejas exigem que aceitemos essa imagem como realidade. A imagem é bela e podemos aceitá-la coma imagem. Deus disse: Faça-se a Terra e ela se fez. Mas se tomarmos isso ao pé da letra caímos no absurdo. Deus fala em nossa consciência e em nosso coração, mas não fala por palavras, nem em linguagem humana. Fala em sua linguagem divina, em sua linguagem de Deus. Podemos compreender isso? Sim, se prestarmos atenção à voz de Deus em nós, que nos fala por intuições, pressentimentos, emoções. Ele toca as nossas teclas internas e soamos como um piano. Mas quem poderia escrever o que Ele nos diz? Nós mesmos não o poderíamos fazer.

Muitas pessoas ilustradas, doutoradas, ordenadas em cerimônias religiosas não compreendem isso. Esperam a voz de Deus como a de alguém que falasse através da linguagem humana. E podem ouvir uma voz que lhes fala no silêncio, como milhões de pessoas ouvem diariamente. [...] Deus nos fala naturalmente, quando estamos em condições de ouvir a sua voz. Mas só ele sabe quando estamos nessas condições. Os que querem ouvir a voz de Deus a qualquer preço geralmente acabam pagando o alto preço do fanatismo [...]. Uma experiência de Deus que pode mandar-nos ao "inferno" das perturbações aqui mesmo, na Terra.

Mas se estamos pensando em Deus, dirá o leitor, como podemos ser assediados por vozes intrusas? Quando pensamos em Deus com pretensões descabidas, desejando ser melhores que os outros, separar-nos do rebanho dos impuros, arriscamo-nos a ficar sozinhos. Os fariseus orgulhosos oravam no Templo e nas esquinas das ruas, julgando-se os privilegiados de Deus, mas Jesus os chamou de hipócritas, sepulcros caiados e cheios de podridão por dentro. Deus não faz acepção de pessoas.

De nada valem os rituais pomposos que só nos lembram as épocas de falso esplendor dos homens que se diziam ungidos e coroados por Deus. De nada vale a leitura dos livros sagrados para a nossa salvação pessoal, ajeitando-nos comodamente no carro particular dos eleitos. Deus não quer a fidelidade forçada dos filhos que ele criou para a herança divina através das experiências da vida. Seu plano está evidente no espetáculo do mundo. Passam as gerações e as civilizações na roda das ilusões, mas Deus espera paciente por cada um de nós. Precisamos compreender que somos criaturas em evolução e que se Deus nos colocou no mundo não foi pelo pecado ingênuo de "Adão e Eva", mas porque precisamos evoluir através das experiências da vida [...]. Somos partes da obra de Deus e não fomos destinados à perdição, mas à salvação. Mas não é através de ritos e palavras que podemos livrar-nos de nossos erros. Temos de acertar, de corrigir-nos. Deus nos espera.

Não devemos extraviar-nos nas ilusões da Terra, para não retardar a nossa evolução para Deus. Entre essas ilusões estão a da santidade fácil, a da hipocrisia que nos leva a considerar-nos melhores que a maioria, a da pretensão de podermos passar através de ritos e sacramentos ao mundo dos eleitos, a audácia de querermos ouvir a voz de Deus em particular, enquanto ela soa no mundo para todos ouvirem. O maior "pecado" é o da fuga à vida, às experiências que nos desafiam. Nascemos para viver a vida e precisamos vivê-la sem apego às coisas do mundo, mas sem rejeição ao mundo, que é obra de Deus. Esse difícil equilíbrio é o objetivo da nossa ginástica existencial. 

Jesus preferiu Zaqueu e Madalena aos doutores do Templo, não condenou a mulher adúltera nem a enviou aos juizes do Sinédrio, aconselhando-a apenas a afastar-se da vida desregrada. Não adianta buscarmos a Deus em longas meditações, recusando o caminho que ele mesmo nos deu para irmos ao seu encontra: o da vida honesta e cheia de amor e compreensão para todos os nossos companheiros da existência terrena.

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Autor: J. Herculano Pires



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