sábado, 9 de julho de 2016

O PANTEÍSMO

Faz parte do senso comum a ideia de que Deus está em toda parte ao mesmo tempo, isto é, que Deus é onipresente. Conta-se que, certo dia, um homem de muita cultura e acostumado à vida agitada da cidade, encontrava-se em grandes conflitos a respeito de sua crença em Deus. Por fim, considerou que o motivo de seu conflito fosse o fato de ele se submeter àquela vida urbana agitada, ambiente este que o estaria afastando de Deus. Então, decidiu que iria fazer um passeio a uma área rural, respirar os ares puros da vida simples, e assim, quem sabe, reencontrar Deus. Não andou muito, e avistou um camponês de enxada a punho, capinando sua lavoura. O trabalhador lhe parecia tranquilo, com a mente refrescada, pois ali vivia livre das tormentas da cidade, com suas roupas sujas e remendadas, seu cigarro de palha pendido nos lábios, um chapéu de palha com abas largas, e sob um céu de puro azul. Aproximando-se bem do humilde lavrador da terra, cumprimentou-o e perguntou-lhe:

- O senhor seria capaz de dizer-me onde está Deus?

O lavrador parou de capinar no mesmo instante, levantou a cabeça e enxugou o suor da testa com o braço. Seu olhar parecia o de um filósofo, pois mirava o horizonte infinito à sua frente, como se procurasse pelos espaços distantes a resposta à pergunta tão inusitada do estranho visitante. E, com uma serenidade que lhe assinalava o caráter de homem respeitoso, respondeu:

- Olha, meu senhor. Onde está Deus, eu não sei, não senhor. Mas será que o senhor me poderia dizer onde é que Deus não está?

Não é apenas na mente do homem simples que se encontra a ideia da onipresença de Deus, e nem esse é um discurso exclusivamente religioso. Grandes filósofos procuraram Deus, e também o encontraram em todos os lugares ao mesmo tempo. Mas, se a ideia da onipresença de Deus está bem resolvida e sedimentada no senso comum, o mesmo não acontece com a doutrina filosófica que trata sistematicamente desse tema. Essa doutrina filosófica é denominada Panteísmo.

Quanto ao significado da palavra “Panteísmo”, analisando a sua estrutura morfológica, temos: pan, que significa “tudo”; theo, que significa “Deus”; e ismo, que significa “sistema” ou “doutrina”. De início, já se pode imaginar que não deve ser nada fácil filosofar em torno da possibilidade de algo poder figurar em mais de um lugar ao mesmo tempo, pois é a própria Filosofia que postula o “princípio da não contradição”, segundo o qual se duas afirmações se contradizem, uma delas será necessariamente falsa, porque a validade de uma requer a nulidade da outra, e a permanência das duas torna ambas impossíveis.

É um processo simples e óbvio de raciocínio. Como, por exemplo: Se temos as duas afirmações “Deus existe” e “Deus não existe” uma deve ser obrigatoriamente falsa, não por decisão que se tome após julgamento do “conteúdo” das afirmações, pois, para a Lógica, qualquer das duas afirmações deve ser igualmente excluída, uma vez que, para a Lógica, o que está em jogo aí não é a verdade da mensagem de cada afirmação em si, mas tão somente a impossibilidade de sobrevivência de ambas simultaneamente.

Essa lógica se aplica naturalmente à ideia da onipresença. A ideia de que Deus possa estar em todos os pontos do planeta, ou do Universo, ao mesmo tempo, é, para a Lógica, uma situação impossível. Mas, para todos os indivíduos que não são filósofos, e para todos os que cultivam sua religiosidade sem se preocupar com o que diz a Lógica, essas reflexões filosóficas são irrelevantes e, de fato, nunca ameaçaram a verdade consagrada que Deus está em todos os lugares ao mesmo tempo.

Só sabemos da impossibilidade de um corpo material qualquer figurar em mais de um lugar ao mesmo tempo porque conhecemos bem o que é um corpo material, pois a ciência nos permite conhecê-lo, e conhecer as leis que o regem. Então, filosoficamente falando, para se abrir uma concessão para Deus, e afirmar que com ele o fenômeno possa ocorrer diferentemente, é preciso que se conheça o que é Deus, sem o que não se poderia ter responsabilidade com tal firmação. A tarefa, então, está se tornando cada vez mais difícil.

A ideia do Panteísmo é em si muito complexa, ainda mais entre os leigos, onde costumam circular comentários e conceituações precipitadas, que tornam ainda mais nebuloso o entendimento claro dessa proposta. Diz-se, popularmente, que para o Panteísmo, Deus está presente em todos os lugares ao mesmo tempo, porque Deus é a própria natureza; que cada ‘pedacinho’ de cada coisa na natureza seria uma parte de Deus, o que leva à conclusão de que Deus e sua criação são uma única e mesma coisa. Mas a questão não é exatamente assim.

Baruch Spinoza (1632-1677), filósofo holandês, de origem portuguesa, e que era judeu por tradição de família, foi o sistematizador do Panteísmo. Por causa de sua ideia, foi excomungado pela comunidade judaica de Amsterdam, em 27 de julho de 1656, e foi acusado de ateísmo por defender a doutrina que, segundo seus opositores, negava que Deus fosse anterior, superior e externo em relação à criação. Hegel, no entanto, trabalhou em defesa de Spinoza, a fim de recuperar o status do Panteísmo como doutrina teísta, argumentando que a realidade negada pelo panteísmo spinoziano é, na verdade, o mundo, como o concebemos materialmente, e que a única realidade existente é Deus, este que é tudo. Assim, Hegel pretendia não só esclarecer que o panteísmo de Spinoza era teísta, já que postulava que Deus era a realidade por excelência. Mais tarde, diante da possibilidade de sua doutrina ser considerada materialista por outros pensadores, o próprio Spinoza se pronunciou para esclarecer o suposto mal-entendido, e suas palavras revelaram mesmo um tom honesto de humildade e clemência. Assim disse Spinoza:

“... estão totalmente enganados aqueles que dizem que meu propósito (...) é mostrar que Deus e a natureza, esta entendida por eles como certa massa de matéria corpórea, são uma e a mesma coisa. Eu não tive essa intenção.”

O que deflagrou as acusações sobre a incompatibilidade do Panteísmo com a crença em Deus foi o fato de Spinoza afirmar que Deus identificava-se com a “substância”, sendo que o conceito de “substância” ainda não estava bem definido entre os pensadores daquela época, e, na verdade, não está definitivamente esclarecido até hoje. 

Naquela época, e também hoje, o termo “substância” era imediatamente entendido como o material em que (ou de que) se constitui toda a natureza, o conteúdo de tudo o que existe, como, por exemplo, as árvores, as águas, os ventos, as montanhas, os átomos. Para Spinoza, no entanto, “substância” não podia ser entendida apenas sob esse aspecto, mas se dividiria em dois tipos: o primeiro, que é o tipo já mencionado acima, que é o mais popular, e que Spinoza o denomina natura naturata (natureza CRIADA), as árvores, as águas, os ventos etc., isto é, a matéria imediatamente identificada pelos sentidos do homem; e o segundo tipo de “substância”, chamado por ele de natura naturans (natureza CRIANDO), que é uma realidade subjacente, não explícita materialmente, mas que está na intimidade de todas as coisas, como sua essência “criadora” (e NÃO CRIADA). É neste segundo tipo de “substância” que Spinoza identifica a presença de Deus e baseia aí o seu Panteísmo. Além das explicações de Spinoza, o termo “substância’, em sentido filosófico, tanto pode referir-se algo de natureza material como espiritual.

O Panteísmo de Spinoza foi mais uma investida rumo ao entendimento de Deus pelos métodos naturalistas, numa época em que muitos outros pensadores teístas não concordavam com o Deus antropomórfico, apresentado pelas religiões. Spinoza, no entanto, foi mal interpretado no seu panteísmo pelo fato de a ideia panteísta tratar-se de uma tese que já vinha sendo cultivada desde eras muito antigas, anteriores a Spinoza, por outros pensadores que adotavam explicitamente uma posição materialista. Spinoza, que era contra eles, foi incluído entre eles. Tal foi o mal entendido.

Plotino (205-270 a.C.) e Parmênides (549-480 a.C.), baseavam-se no primeiro tipo de substância que Spinoza apresentou, que era a substância material popularmente concebida. Todo Panteísmo anterior Spinoza era chamado “Panteísmo Absoluto”, pois afirmava que Deus é a soma do todos os elementos (materiais) da natureza e, neste caso, deixando claro que Deus não seria anterior, nem exterior, nem superior à criação, mas se confundiria e pulverizava-se na própria criação. 

Esse é o conceito de Panteísmo mais difundido, pelo menos entre os leigos, como dito acima, e que recorrentemente é tomado como o único panteísmo existente, provocando, assim, a igual repulsa a todas as suas vertentes.

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Autor: Peter Sparks



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