sábado, 2 de julho de 2016

DEUS E CIÊNCIA

Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima.” (Louis Pasteur)

“Por maiores que tenham sido as crises por que passei, nunca desci até o ateísmo, nunca cheguei a negar a existência de Deus.” (Darwin)

Ao longo da história, vários cientistas que tentaram encontrar a origem do Universo ou a origem da vida depararam-se, de repente, com a necessidade de que existisse, no princípio de tudo, a figura de um Criador. Essa coisa chamada “origem” é muito complexa. Se um pesquisador lograsse o supremo êxito de encontrar a partícula primordial de todo o Cosmo, muitos diriam: Bem, agora não precisamos mais de um Deus. Eis a partícula de onde tudo nasceu. Mas o cientista logo refletiria: Tudo nasceu a partir dessa partícula primordial. Mas e quanto à própria partícula? Que origem ela teve? De que modo e por meio de que processo ela brotou do nada veio à existência? Bem, diriam as pessoas neste momento, agora precisamos de um Deus novamente.

Existem duas grandes linhas de pensamento sobre a possível origem da vida e do Universo: o Criacionismo e o Evolucionismo. Os adeptos do Criacionismo defendem que o homem e os animais são produtos de uma criação direta, realizada por um Ser possuidor de um poder sobrenatural, que é Deus. A argumentação dessa linha de pensamento se apoia na interpretação literal de textos bíblicos que tratam do tema, como, por exemplo:

A criação do ser humano:
Gênesis 2:7: “Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente.”

A criação dos animais:
Gênesis 1: 21: “Assim Deus criou as grandes criaturas do mar, e todos os seres viventes que se arrastam, os quais povoavam as águas, conforme as suas espécies, e todas as aves que voam, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.”

A criação do Universo:
Hebreus 11:3: “Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus, de maneira que o visível não foi feito do que se vê.” E, ainda, o mais clássico e incisivo trecho do Gênesis 1:1: “No princípio criou Deus os céus e a terra.”

Os adeptos do Evolucionismo defendem que o homem é produto da evolução. Da mesma forma é que se explicaria também a existência dos demais seres vivos, que chegaram a ser o que são hoje (incluindo especialmente o homem) apenas depois de mutações, recombinações e seleção natural, ao longo de milhões e milhões de anos. O Universo também se explicaria com o argumento evolucionista. Herbert Spencer, considerado o pai do darwinismo social, afirma que a evolução é um fenômeno geral, inerente à natureza do Universo, aplicável tanto aos átomos como às galáxias. Para os evolucionistas, toda a natureza está em constante mudança, e essa mudança não cessou até hoje, e nem há de cessar.

Porém, quando Carl Lineu, naturalista sueco que viveu antes a Darwin, classificou o homem e o macaco como gêneros correlatos, criou o termo homo sapiens para colocar o homem numa posição diferenciada, e afirmou que embora ao dissecar um corpo humano, nada se ache nele que não ocorra também no corpo dos animais, devia haver uma essência humana, ligada a algo de absoluto e imaterial que “o Criador” teria dado exclusivamente ao homem, isto é, a alma. É de Lineu a seguinte frase: “É, pois, justo acreditar que há um Deus imenso, eterno, incriado, sem o qual nada existe e que tenha feito e coordena esta obra universal”.

Charles Darwin é o mais famoso naturalista inglês, que se celebrizou com o lançamento da obra A origem das espécies, em que sustenta a teoria da seleção natural, segundo a qual as espécies surgem da adaptação dos seres ao meio ambiente e de uma constante luta pela vida no reino animal. Segundo Darwin, a própria natureza é que se incumbe de fazer essa seleção natural. Essa teoria até hoje tem grandes opositores na religião. Há, porém, ideias mal entendidas com relação à obra de Darwin e ao que ele disse. Por exemplo, é um engano pensar que teria sido ele quem afirmou que o homem seja um ser que tenha evoluído a partir de um primata comum (o macaco, ou o símio), e igualmente equivocado também é dizer que Darwin tenha negado a existência de Deus como Criador. 

Esses são, normalmente, os dois pontos principais de repúdio dos religiosos com relação a Darwin. Trata-se, no entanto, de má informação sobre a obra do referido cientista, pois quem formulou a teoria (terrível aos religiosos!) de que “o homem veio do macaco”, como assim ficou vulgarizada, foi o filósofo e sociólogo inglês Herbert Spencer, já citado mais acima. Spencer publicou essa sua ousada ideia no seu livro Principles of biology (Princípios de biologia). Mas mesmo Spencer nãos dispensava a possibilidade da existência de uma espécie de “Poder Inescrutável” no princípio de tudo. 

Spencer aceitava a existência de um “Absoluto incognoscível” ao homem, e dizia que foi sobre esse “Absoluto incognoscível” que o homem teria feito suas interpretações e julgamentos, até o ponto que lhe foi possível, e a partir daí criou suas religiões. Spencer aceitava que “o reconhecimento desse Poder Inescrutável é o cerne da verdade em toda religião e o começo de toda filosofia.” (Grifos nossos.) 

Voltando a Darwin, este teve, inclusive, uma passagem pela vida eclesiástica, fato esse pouco conhecido, pelo menos entre os leigos, sobre o mais célebre evolucionista. Tendo estudado na Christ’s College, em Cambridge, Darwin chegou a obter o título de Magister Artium, aos 22 anos de idade, mesmo grau que Martinho Lutero também obteve, quando se formou em Filosofia. Além de sua relação com a religião, Darwin também era amigo íntimo de Alfred Russel Wallace, que era espírita. Com ele trabalhou e dele teve influências, chegando mesmo os dois a escreverem em parceria. 

Pesquisador naturalista, também inglês, Wallace defendia a existência e a intervenção de “causas não identificadas” na evolução das espécies. Essas “causas”, para ele, seriam “não identificadas” por serem pertencentes à esfera da espiritualidade, portanto não passíveis de análise pelos métodos que se aplicavam às suas pesquisas naturalistas. Darwin, por sua vez, se por influência direta de Wallace, ou não, não se sabe, ao ser acusado de ateísmo, declarou: “Por maiores que tenham sido as crises por que passei, nunca desci até o ateísmo, nunca cheguei a negar a existência de Deus.”

No campo das pesquisas sobre a origem do Universo também ocorrem experiências semelhantes de cientistas que se veem diante da implacável necessidade da existência de um Deus. Atualmente, a mais difundida tese sobre a origem do Universo é a do Big Bang (ou “Grande Explosão”), segundo a qual a matéria que teria dado origem ao Universo estaria condensada num único óvulo, que em determinado momento “explodiu”, e a sua expansão teria dado origem a todo o Universo conhecido (Nota: Apesar de o termo Big Bang indicar a noção de uma “explosão”, o que se aceita, hoje em dia, é que o que houve não foi exatamente uma explosão, mas, sim, uma “expansão” da matéria que formava o óvulo inicial). 

Pois bem, se a origem do Universo foi mesmo assim, caberiam já umas perguntas que nos arrastam à ideia de um Deus: se no princípio tudo que existia era um “óvulo”, perguntaríamos: Como se formou esse “óvulo”? E a matéria de seu conteúdo, de onde veio, o que lhe deu origem? Como se entende a existência anterior do espaço que veio a ser ocupado pelo Universo depois? 

É por essas e outras questões que “não sem razão, os maiores cientistas da atualidade afirmam que a Ciência caminha na direção de encontrar um único elemento material original, do qual todos os outros elementos derivam. E, concomitantemente, cada vez mais se deparam com um autor da matéria que não pertence a ela, sendo mais abstrato que o último dos elementos da natureza, descobrindo uma natureza diferente e anterior à matéria.” 

Stephen W. Hawking (1942-), maior autoridade mundial em Física desde Albert Einstein, é atualmente professor na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e ocupa a mesma cadeira que pertenceu a Isaac Newton. Uma de suas mais influentes obras intitula-se Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros. 

Hawking é ateu, unanimemente considerado um dos mais brilhantes cientistas de todos os tempos e o mais famoso cientista que pretende provar ser possível explicar tudo sobre o Universo sem que seja necessário falar-se sobre Deus. Isto é, sem que seja preciso existir qualquer ideia de um Criador. Há, porém, uma sutileza numa de suas colocações a esse respeito, que merece ser apreciada. Em sua obra acima citada, ele diz: “Até então, a maior parte dos cientistas tem estado muito ocupada com o desenvolvimento de novas teorias que descrevem o que é o Universo para se fazer a pergunta por que,...”

Mais à frente, na mesma página, Hawking diz que são os “filósofos”, e não os cientistas, as pessoas que trabalham com a pergunta por quê. Com essa colocação, o que Hawking faz é uma divisão de campos de estudos, em que a Ciência pesquisa o “o quê”, e a Filosofia pesquisa o “porquê”. Não se pode inferir daí, pois, que ele tenha negado Deus, mas, tão somente, que se desincumbiu da tarefa de estudar o assunto, transferindo-o a quem é de competência, isto é, aos filósofos.

Ao ser indagado por um aluno sobre onde estava o Universo antes da explosão do Big Bang, Hawking respondeu: “Por falta de compreensão melhor, prefiro acreditar que estivesse no bolso de Deus”. Hawking quase sempre coloca um tempero de ironia e humor em suas palavras, quando se toca em assuntos sobre Deus. Pode ser que ele faça isso como uma forma de expressar o seu bem resolvido ateísmo. Porém, o mesmo comportamento poderia ser interpretado à luz da psicanálise também como o sintoma de um conflito interior. 

Talvez Hawking acredite na existência de um Deus, de alguma maneira, mas pelo fato de ele ser uma alta autoridade da Ciência, pode achar ridículo o seu ato de endossar publicamente algo que não possa ser comprovado por seus próprios métodos científicos.

Como a ciência nunca conseguiu chegar ao fim das investigações sobre as origens, não encontrando nem Deus nem a partícula primordial da matéria, conclui-se que os mistérios mais profundos, tanto da espiritualidade como da matéria, permanecem igualmente além da concepção humana ou fora do alcance da ciência terrestre. Hoje em dia, a explicação evolucionista não representa, em consenso, uma visão necessariamente ateia, da mesma forma que nem todos os criacionistas descartam totalmente o que diz a ciência evolucionista. Em resumo, essas duas linhas de pensamento estão gradativamente se fundindo.

-----------------

Autor: Peter Sparks



Nenhum comentário: