terça-feira, 5 de julho de 2016

A SIMPLICIDADE

Um dos mais belos ornamentos da alma é a simplicidade; não uma simplicidade estudada para causar efeito ou esconder a vaidade. A simplicidade tem de ser espontânea e natural, ou não é simplicidade. Acontece, porém, que quando ela se revela por essa forma espontânea e natural, já está a criatura situada num nível elevado de evolução, pois quanto mais evoluída estiver, tanto mais simples será. A falta de simplicidade, ostensiva ou oculta, denuncia um estado de alma nada lisonjeira, nada edificante, muito embora a encenação seja a mais tocante possível; almas tidas como piedosas, não raro deixam-se levar pela mística de recompensas celestiais e adotam uma representação no palco da vida, que leva à comoção muitas das pessoas inclinadas a proceder da mesma forma. A simplicidade que envolve esse cenário é aparente, e não real.

Para muita gente, ser piedoso é ser simples, e vice-versa, quando, na realidade, o “piedoso” é um ser imbuído da convicção enganosa de ter assegurada, pelos seus atos, a sua entrada triunfante no reino dos céus, após a morte, julgando haver conquistado no paraíso celeste a mais alta “distinção espiritual”. O piedoso é assim um indivíduo que facilmente se envaidece, enchendo-se de pretensões falsas e até ingênuas. Geralmente quem se julgar distinguido para receber tão alto prêmio, tão privilegiada posição, só poderá ter simplicidade exteriormente, porque no fundo está convencido da sua superioridade sobre os demais; da glória de ser “eleito de Deus”, da ufania de se considerar um “escolhido do Senhor”. [...]

A simplicidade não obriga ninguém a curvar-se ante os poderosos, nem humilhar-se diante de qualquer situação. Em primeiro lugar, porque os que se julgam poderosos, são meros manequins em uma eventual exibição, e só o fato de se julgarem poderosos e pretenderem dar testemunho disso prova a inferioridade espiritual que os anima. [...] Em segundo lugar, porque todas as almas são da mesma essência, iguais perante ao Todo, e diante dessa verdade, não cabem atitudes de humilhação. Se alguém precisar de humilhar-se, deverá ser diante de si mesmo, de sua própria consciência, face aos erros cometidos, que realmente inferiorizam. Ninguém deve cometer a imprudência de humilhar o seu semelhante na sua dignidade pessoal, para feri-lo, de algum modo.

A simplicidade não admite atos que contrariem a ética espiritualista, de que faz parte. A criatura simples não disputa lugares que não lhe devam pertencer ou para os quais não está preparada, não se impõe, pretensiosamente, não faz prevalecer a sua opinião pessoal sem respeitar a do seu semelhante, acata o ponto de vista alheio, examinando as circunstâncias que o determinam. A simplicidade é coerente, tolerante, moderada, prudente, comedida e respeitadora.

Há pessoas que pensam que ser simples é andar com roupa amarrotada e de má, qualidade, com sapatos descambados, de pijama na rua, de cabelo revolto, completamente descuidadas. Ao contrário, a simplicidade pede limpeza, esmero, decência e apuro. O Mestre Nazareno, exemplo de simplicidade, usava túnicas sem costura, que eram as de melhor qualidade. Assim, os que trajam roupas de boa qualidade, podem, ao mesmo tempo, apresentar-se com discreta simplicidade.

A simplicidade exclui o supérfluo, o aparato, a ostentação e o luxo, para só prevalecer a utilidade, na sua forma simples e indispensável. A simplicidade elimina qualquer apreensão do ser quanto ao que possa, porventura, faltar-lhe, porque, como está aliada à espiritualidade, não se cerca de ambições escravizadoras. Ela é um estado de alma perfeitamente configurado, em que a criatura vive sob a influência de satisfações que estão acima das que o mundo concede. Não obstante a peculiaridade exposta, a simplicidade incentiva o progresso, estimula a iniciativa, almeja o estabelecimento de uma vida simples para todos e contenta-se com o que tem. [...]

A pessoa simples não se revolta com as falhas esporádicas ou eventuais do semelhante. Sabe, compreensivamente, aquilatar do valor dele, e medir até onde vai a sua capacidade social e moral. A reação contra os erros alheios deverá ser, tanto quanto possível, irradiativa, doutrinária e esclarecedora. Sem originar humilhação, a réplica aos maus procedimentos deverá soar serena e oportuna, com adoção dos métodos da simplicidade, pois pela força que possuem, grandes obstáculos podem ser removidos. A simplicidade é uma qualidade, é um atributo de valor, é um poder do espírito de importância inestimável.

Grandes figuras humanas, além de Jesus, deram exemplos magistrais da força da simplicidade inata; dentre muitas, basta citar uma, bastante conhecida, por haver sido contemporânea, a do Mahatma Gandhi, na índia. Adotando indumentária usada em seu país natal, revelou-se sempre extremamente simples em todos os seus atos. Essa simplicidade chegou a tornar-se chocante, frente à aristocracia. Foi um líder, um idealista, realizador que sacudiu milhões de pessoas, sob o manto sincero da simplicidade.

A simplicidade deve ser exercida de acordo com o feitio moral do povo na sua forma exterior, e assim ninguém precisa alterar os hábitos formalísticos, para manter a simplicidade. Como princípio educativo, vale a pena fomentar a admiração pela simplicidade, para ser objeto de meditação, quanto à sua causa e efeitos.

A simplicidade decorre de uma lapidação do espírito e, por isso, torna-se refulgente à apreciação daqueles que também aspiram alcançá-la. Ninguém pode entretanto, adquiri-la por um mero e vago interesse, por ser necessário trabalhar por ela, em silêncio, por muito tempo, em longas e espinhosas jornadas. É preciso vencer as atrações da Terra, adotar o espírito de renúncia e converter-se em cidadão do mundo, para não dizer, como cabe, do Universo.

A criatura simples compreende melhor as lições [...], afeiçoa-se mais à prática do bem e sente, com maior nitidez, as vibrações do amor. Tudo isso, porque a sua alma vive as sensações de um mundo melhor [...], mais espiritualizado, a que pertence. Todos refletem na Terra, com maior ou menor aproximação, os indícios do mundo próprio, de luz, a que estão afeitas as suas almas.

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Autor: Luiz de Souza



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