quinta-feira, 14 de julho de 2016

A CORAGEM

A coragem é a disposição de ânimo que leva o indivíduo a enfrentar o perigo, a zelar pela sua honra e dignidade, arrostando qualquer sacrifício, a manter-se ereto diante de interesses contrariados, a lutar pelo direito em ambiente hostil, a bater-se por um ideal contra forças mais poderosas, a encarar, com serenidade, o insucesso, a defender os mais fracos e os injustiçados, a não usar de sua força contra os humildes, e não se aproveitar de situações de desventura. A criatura de coragem é valorosa, inspira confiança, estimula os desanimados, atrai saúde e vitalidade, dá curso a iniciativas produtivas, é realizadora e otimista, sabe enfrentar o trabalho que lhe é destinado e cumprir o seu dever, serve de guia ou de orientadora, não esmorece diante de contratempos, respeita, como quer ser respeitada, não se ocupa de futilidades e é, no, fim, um centro de convergência de forças espirituais.

A coragem é um produto de educação cultivada por séculos, que, de existência em existência, vai se tornando cada vez mais apurada. Depois de cultivada, é serena e ponderada e revela-se com as suas características próprias nos grandes momentos, nas ocasiões dramáticas, nos instantes decisivos.

A exposição ao risco, de maneira cega ou irrefletida, é temeridade, insensatez e não coragem. A temeridade pode ser usada por um suicida, no auge da sua loucura, em caráter irremediável, num gesto impensado, sem que a coragem tivesse participação nessas situações. Ao contrário, ao suicida quase sempre falta a coragem para viver e enfrentar os lances dramáticos da vida.
Há realmente certos dramas da vida que pesam mais do que a morte, mas havendo coragem, nada se perde, nenhum desatino se comete, porque o homem de coragem não se entrega, frustrado, uma vez que no seu interior brilha uma chama, que nunca se apaga, por mais tormentosos que sejam os temporais da vida.

Todos têm de fazer a aquisição da coragem na Terra. As guerras servem também para adquiri-la. Tudo, na vida, tem a sua razão de ser. As guerras refletem a lei de causa e efeito, sendo, por isso, até certo ponto, inevitáveis, enquanto a espiritualização não exercer predomínio sobre as massas humanas. Sabido como é que todo os sucessos ou insucessos resultam em evolução, há sempre partido a tirar de todas as convulsões. Assim, a coragem nasce da necessidade de enfrentar os acontecimentos, e do entendimento que traz a convicção de que se pode viver muito melhor com coragem, do que sem ela.

É preciso não ter medo de dizer e ouvir a Verdade, e possuir discrição para guardar um sigilo. É esta uma coragem real, principalmente quando se revestir de humanismo e traduzir um gesto de renúncia, um ato nobre de abnegação, de desprendimento e de elevação moral. [...]

Há indivíduos afoitos, impetuosos, violentos, temperamentais, agressivos, provocadores, atrevidos, que apenas demonstram profunda falta de educação e de senso, com a vaidade de querer passar por valentões, pensando que atrás dessa fanfarronada, todos podem vislumbrar a coragem que aspiram possuir. Mas esse não é o caminho, uma vez que só pela senda da espiritualização poderão chegar, como querem, ao objetivo almejado.

Os que chegam a esse objetivo são corajosos e convictos de que a sua constituição espiritual é imorredoura, indestrutível e imutável, e têm certeza de que todas as partes de que se compõem são invioláveis e indestacáveis da unidade. Portanto, nenhum mal os pode atingir, e nada há que diminua a sua riqueza moral e espiritual conquistadas.

Nenhuma razão, portanto, existe para temer coisa alguma, uma vez que não se perca a visão real dos fatos, procurando compreender que onde há luz as trevas são dissipadas, e onde há coragem, o medo é inexistente. Coragem não pode faltar a quem se conheça como partícula eterna da Inteligência Universal. A coragem se revela pela inexistência do medo. Se o medo fosse uma expressão desconhecida, o oposto, a coragem, seria um atributo tão comum a todas as pessoas, que passaria desapercebido. O medo é uma enfermidade psíquica ou um estado patológico da alma, criado por pensamentos aflitivos e por apegos exagerados às temporárias ligações com o mundo. [...]

As primeiras lições de espiritualização levam a criatura a compreender que os sofrimentos, na sua generalidade, são o efeito de uma causa visível ou oculta, remota ou recente. Portanto, fazendo bom uso da sua inteligência, não há ninguém, conscientemente, que queira cavar a sua ruína. Mas quando se encontrar na desgraça, sempre provocada, não deve deixar de apelar para a sua coragem como meio altivo, decoroso e digno de saber arcar com as conseqüências de seus próprios atos.
Não é por falta de coragem que o indivíduo se esquiva de afundar-se no sofrimento, mas por sabedoria, por inteligência, por conhecimentos adquiridos com relação à vida espiritual. [...]

A coragem de modo algum pode prejudicar. Ela exige prudência, cautela e ação. Todos, na rotina da evolução, caminham para conquistá-la. A vida terrena oferece numerosas exponenciais para o exercício da coragem, pela necessidade que há dela integrar-se na formação moral de cada pessoa. A coragem aviva os traços da personalidade, dá firmeza a atos e atitudes, consolida a autoridade, e por ela se elegem os condutores dos agrupamentos humanos.

Indivíduos aventureiros que se escudam, para a sua defesa em armas mortíferas, atuando sob o manto da ilegalidade, são temerários ou suicidas que vivem à margem da sociedade e inimigos do trabalho, que não são levados aos seus fins pela coragem indômita dos fortes de espírito, mas pela covardia que a aparatosa encenação de pistolas carregadas dissimula. Estes, no fundo, têm mais medo, inclusive da cadeia, do que, expressando um simbolismo, o "demônio da cruz". O sentido elevado da coragem não admite interpretações de ordem superficial. Há certas valentias que aparentam coragem, mas que, na realidade, não passam de fontes de exibição a alimentar um ângulo da vaidade. [...]

Pode-se assegurar que a coragem nasce, espontânea, com o processo da evolução. Esta, à medida que avança no caminho da eternidade, vai desabrochando os seus atributos intrínsecos, no meio dos quais se encontra a coragem. Enquanto se procura desenvolver a marcha evolutiva, impõe-se na vida o exercício da coragem. Use-se, porém, o raciocínio, criteriosamente, para não se cair na malhas da temeridade, e não se dar um passo inseguro, imprudente ou desatinado. Veja-se que para desenvolver a coragem, são necessários uma disciplina mental, um controle interior, uma compreensão espiritual; a coragem é uma força do espírito revelada, é qualidade inerente, é um poder refletido do Poder Total. [...]

Muitos crimes se cometem sob uma falsa impressão de coragem, em cujo nome grandes erros se consumam. Tudo isso por falta de esclarecimento, pela ausência, muito lamentável, de interesse por conhecer-se o lado bom, puro e verdadeiro da vida.

A coragem não pode ser explorada, nem servir de ostentação. Ela deve ser usada, altruisticamente, para o bem parcial ou coletivo, sem alarde e com naturalidade. O procedimento corajoso espontâneo, oportuno é objetivo, diz bem do valor dos seres humanos. Sem revidar provocações, a coragem atua na defesa, educativamente, com energia e superioridade, sem que o ser se sinta, no ato, estimulado por nenhum sentimento negativo.

Vale a pena meditar sobre este tema, que encerra muitas lições proveitosas e estimulantes de uma mentalidade corajosa, nos termos da concepção espiritualista. O veículo que conduz a criatura pela estrada da evolução, contém muitas peças, sendo a coragem uma delas. Nenhuma peça pode ser dispensada, pois cada qual tem a sua serventia e desempenha o seu papel. Cuide-se, pois, de cada uma com desvelo e a mais apurada atenção.

Tornar-se forte e valoroso em espírito é adquirir coragem, é vencer embaraços, é transpor obstáculos que para muitos podem parecer intransponíveis. A vida vivida com coragem, é mais amena, mais bela, mais adornada de encantos. A coragem é, pois, um vigoroso acervo que, uma vez adquirido, nunca mais se perde.

Todos haverão de chegar a possuir, no curso da vida plena, a forma ideal de coragem, e o importante é que se não perca o precioso tempo. Quanto mais depressa se for avolumando o tesouro individual, por essa valiosa prenda, melhores serão as perspectivas futuras, mais amplos recursos estarão ao dispor da criatura para, com eles, alcançar novos e sucessivos triunfos. [...]

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Autor: Luiz de Souza



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