quarta-feira, 22 de junho de 2016

SOBRE DEUS E SUA EXISTÊNCIA

A única ideia que o homem pode adicionar ao nome de Deus é a de uma causa primeira, a causa de todas as coisas. Tão incompreensível e difícil para o homem conceber o que é a primeira causa, que ele chega à crença de que é dez vezes mais fácil desacreditar de sua existência. É difícil, além da capacidade de descrição, conceber que o espaço pode não ter fim, mas também é mais difícil conceber um fim. É quase impossível concebermos uma duração eterna do que chamamos tempo, mas é mais impossível ainda conceber um momento em que não haveria o tempo.

De maneira semelhante de raciocínio, tudo o que se vê carrega em si a evidência interna que se deu a cada homem de uma prova para si mesmo que ele não fez a si mesmo, nem poderia tornar-se seu pai, nem seu avô, nem nenhum de sua etnia, nem podia qualquer árvore, planta, animal tornar-se por si só e esta evidência que nos leva, por assim dizer, a concluir numa causa primeira eternamente existente, de natureza totalmente diferente a qualquer existência material que conhecemos e pelo poder de que todas as coisas existem, a primeira causa chamamos de Deus.

É somente pelo exercício da razão que o homem pode descobrir Deus. Tire essa razão e ele seria incapaz de compreender qualquer coisa, e, neste caso, seria tão consistente a Bíblia ser lida por um homem ou um cavalo. Como, então, é que as pessoas fingem rejeitar a razão?

Quase as únicas partes da Bíblia que nos transmitem qualquer ideia de Deus, são alguns capítulos de Jó e o Salmo 19 e eu não me lembro de nenhum outro. Essas peças são verdadeiras composições deístas, pois trata da divindade através de suas obras. Eles pegam a Criação como a palavra de Deus, não se referindo a nenhum outro livro e todas as inferências que eles fazem são retiradas da observação da Criação. [...]

Tudo o que o homem quer saber é se o poder que fez todas as coisas é divino, é onipotente? Se as pessoas usarem a razão, sua regra moral de vida seguirá naturalmente, assim como a resposta para esta pergunta. Há uma passagem que me ocorre que é aplicável ao assunto sobre o qual eu estou falando: "Podes tu, procurando encontrar a Deus? Podes descobrir o Todo-Poderoso em sua perfeição?"

Duas questões distintas que merecem respostas distintas surgem-me com esta afirmação:

Primeiro: É possível procurando encontrar a Deus? Sim, porque eu sei que eu não fiz a mim mesmo, e ainda existo; e através de pesquisa sobre a natureza de outras coisas, acho que nenhuma outra coisa poderia se fazer por si só e ainda existem milhões de outras coisas; por isso é que eu sei, por conclusão positiva resultante desta pesquisa, que existe um algo superior a todas essas coisas e que podemos chamar esse poder de Deus.

Em segundo lugar, é possível descobrir o Todo-Poderoso em sua perfeição? Não, não só porque o poder e a sabedoria que Ele manifestou na estrutura da Criação são incompreensíveis, mas porque essa mesma manifestação, por maior que seja, é, provavelmente, apenas uma pequena demonstração da imensidão do poder e sabedoria por que milhões de outros mundos, para mim invisíveis pela distância, foram criados e continuam a existir.

É evidente que estas duas perguntas foram postas à razão das pessoas a quem elas deveriam ter sido questionadas e é só quando a primeira pergunta é respondida afirmativamente que a segunda poderia ser feita. Ela teria sido desnecessária e até mesmo absurda, se a primeira pergunta for respondida negativamente. As duas questões têm diferentes objetos, o primeiro refere-se à existência de Deus, a segunda aos seus atributos; a razão pode descobrir uma, mas cai impotente para responder a segunda.

Eu não me lembro de uma única passagem em todos os escritos atribuídos aos homens chamados de apóstolos, que transmitam qualquer ideia do que Deus é. Esses escritos são principalmente controversos e é mais provável terem sido criados por algum gênio sombrio aprisionado do que por quaisquer homens que tenham respirado o ar livre da Criação. 

A única passagem que me ocorre, que tenha qualquer referência às obras de Deus, pelo qual somente seu poder e sabedoria podem ser conhecidos, está relacionada ao que disse Jesus Cristo como uma solução contra cuidados desconfiados. "Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam". Muito embora seja inferior às alusões em Jó e no Salmo 19, mas é similar em ideia e a modéstia das imagens é correspondente à modéstia do homem.

-------------------

Autor: Thomas Paine



Nenhum comentário: