sábado, 11 de junho de 2016

SEITAS E RELIGIÕES

Tal é a diversidade de temperamentos, sentimentos, intelectualidade, aspirações, sensibilidade, inclinações e concepções na criatura humana, que chega a ser possível manterem-se, na Terra, mais de oito mil seitas e religiões. Nessas lutas uns se fortaleceram espiritualmente e conquistaram independência moral, sabendo ganhar e perder e, vencendo a covardia, exercitaram os valores pessoais que todos possuem em estado latente; outros, de índole menos intrépida, deixaram-se abater pelos impactos da vida, aterrorizaram-se, recuaram, tornaram-se pessimistas e criaram, com isso, um estado de inibição, de defesa permanente, de nervosismo. Os que tiveram maior número de vitórias, graças ao domínio pessoal, foram os que melhor fizeram uso do raciocínio e do livre arbítrio, com o que adquiriram desafogo moral e fortaleza espiritual.

Os demais, que seguiram por outras veredas, tornaram-se vítimas das suas próprias fraquezas, e numerosas vezes se arruinaram.
Os primeiros, enquadraram-se sob uma bandeira que tem por lema o valor, a confiança em si, o respeito ao próximo, a firmeza de caráter, o amor ao trabalho, a consciência do dever, a honradez e a disciplina.

Os segundos, os temerosos e vacilantes, caminham sob o domínio da dúvida e da incerteza, pedem apoio, precisam escorar-se, não têm segurança, vêem no futuro uma incógnita sombria, e o único consolo que lhes resta é o abrigo que lhes oferecem as oito mil e muitas seitas e religiões reinantes preparadas para recebê-los, de conformidade com o estado de fraqueza moral de cada um.

Dentre essas numerosas seitas e religiões, algumas são baseadas na Bíblia, transformada, por lhe atribuírem dom divino, em livro sagrado, como se fora a palavra de Deus. A Bíblia é um livro repleto de lendas, narrativas e profecias, que se prestou a favorecer a criação de seitas e religiões que se degladiam, ao invés de se unirem fraternalmente.

Os degladiadores bíblicos apegam-se a bagatelas, para se defrontarem. Os sabatistas e os adventistas do sétimo dia, acham que se Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo, como diz a Bíblia, esse sétimo dia tem de ser o sábado e não o domingo, e, por isso, Deus pode tachar de indisciplinados os que guardam um dia em lugar do outro.

É, sem dúvida, uma interpretação dada ao pé da letra, sem levarem em conta os intérpretes o simbolismo da lenda. É de notar-se que outras seitas bíblicas que levam a ferro e fogo a interpretação do chamado livro sagrado, não dão importância a esse fato.

Os Mórmons, de Bíblia na mão, dão grande ênfase aos versículos bíblicos que afirmam que Deus tem um corpo físico igual ao humano. Os batistas dizem que a Bíblia manda batizar por imersão, mas os presbiterianos discordam disso e batizam por aspersão; os católicos fazem imagens para adorar, como dizem os protestantes, contra o texto de um dos dez mandamentos da lei de Deus, mas defendem-se dessa acusação dizendo que não são adoradas as imagens e, sim, venerados os santos que elas representam, o que a estes não convence.

Enfim, atacam de um lado, defendem-se do outro, sempre de Bíblia na mão, tornando-se ela um pomo de discórdia. Os militantes dessas seitas dizem-se cristãos, seguidores dos ensinamentos de Jesus, e, no entanto, cada uma delas proclama que é a única a conduzir o seu rebanho ao reino dos céus. Evidentemente alguma coisa está errada nesse raciocínio.
O erro reside no fato de nenhuma dessas seitas explicar o que é Deus. Para compreender Deus é preciso lançar a vista para o Universo e não a restringir ao mundo Terra, esta insignificante partícula de pó, se comparada com o macrocosmo.

A Terra é um planeta diminuto pertencente a um dos menores sistemas solares da galáxia. Os sistemas solares estão agrupados em galáxias, e aquela a que pertence o nosso sistema solar, é formada de milhares de milhões de sistemas solares. A Força Criadora, que a palavra "Deus” deveria representar, é quem preside a Vida em todo o Universo, no qual revoluteia incontável número de galáxias.

Ao invés de procurarem dilatar a compreensão de Deus, para senti-lo, tanto quanto possível, através do Infinito, levam as ovelhas das múltiplas seitas e religiões, especialmente as chamadas cristãs, a comprimi-lo dentro dessa ínfima partícula de pó, que é o mundo Terra, e ainda querem os Mórmons confiná-lo num corpo humano!

Quando foi escrito o Velho Testamento, no correr de algumas centenas de anos, antes da era cristã, os conhecimentos científicos eram reduzidíssimos. Naqueles tempos não se sabia que forma tinha a Terra, que girava em tomo de si mesma, e do Sol. Pensava-se no Universo com as dimensões proporcionalmente limitadas ao saber de então e, com uma concepção primária, formaram uma imagem de Deus realmente primitiva.

Essa imagem é a que os crentes bíblicos querem sustentar nos dias de hoje, com o espírito amarrado àquelas priscas eras. Os credos religiosos falam de um Deus "pessoa”, sentado num trono, tendo ao seu lado direito o filho unigênito, que ali fica à espera do dia em que há de vir a julgar os vivos e os mortos deste minúsculo planeta.

Essa idéia de Deus, tão comprometedora da civilização atual, tem como responsáveis os dirigentes dessas seitas e religiões que estão vivendo com retardamento voluntário, em matéria religiosa, de umas duzentas gerações.

A Inteligência Universal, como um Grande Foco Irradiante, abrange o Espaço Integral com as suas vibrações cósmicas. O Espaço está cheio dessas vibrações, ou Força, não havendo um só ponto vazio. Todos os astros flutuam no interior dessa Força, que os envolve e penetra até o âmago, saturando-os dela.

A Força Criadora é incorpórea, é Luz, é Inteligência, é Poder. Só neste sentido a palavra “Deus" poderia ser aceita, mas nunca como um ser bíblico, materializado, vingativo, partidário, guerreiro, iracundo e capaz de desempenhar o papel de ignorante que na Bíblia lhe querem atribuir.

O mundo precisa de espiritualização, e não seria demais que as seitas e religiões reestruturassem as suas organizações, de modo a poderem prestar à humanidade essa valiosa contribuição. Elas não podem permanecer com as suas práticas e ensinos inteiramente desatualizados perante os sucessos da vida moderna. Tudo prospera, tudo se transforma e evolui, e não há nada que possa permanecer eternamente numa posição irredutível.

Caso queiram e possam as seitas e religiões amoldar as suas organizações ao conceito corrente, pondo de parte as velharias incompatíveis com as luzes do século, prestarão serviço incalculável, que poderá contribuir para modificar a mentalidade egoísta, materializada e gozadora de grande parte da coletividade em que operam.

A ansiedade de uma conquista espiritual, é como uma sede que a alma tem e que precisa ser satisfeita. Os componentes das seitas e religiões estão ali saciando essa sede, que acaba quando a causa desaparece. E essa causa desaparece com a expansão dos anseios espirituais. Essa expansão se verifica com a prática do bem, com o bom uso do raciocínio, com a moderação nos atos da vida, com a prestimosidade e a renúncia.

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Autor: Luiz de Souza



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