sexta-feira, 3 de junho de 2016

RELIGIÕES

Tem-se por religião um conjunto de regras dogmáticas, ritos e liturgias, cujas modalidades variam, dando origem a diferentes crenças.


Elas valem pelo que produzem no sentido de contribuir para a moralização de hábitos e costumes, e pelo que possam pugnar pela constituição da família e pela educação dos filhos, dentro de um regime limitado aos conhecimentos que possuem.

O mal maior é dedicarem à parte adoratória uma atenção muito maior do que a que diz respeito ao procedimento irrepreensível que todos devem manter na Terra, por estarem os seus membros persuadidos de que o Deus que veneram está muito mais interessado na adoração que lhe tributam, do que no fiel cumprimento dos deveres que tocam a cada um.

A Inteligência Universal não deseja ser adorada, uma vez que não é vaidosa. As leis que dela emanam, se houvesse esclarecimento, fariam que cada indivíduo executasse a sua parte, corretamente, nas lides cotidianas. Portanto, a melhor maneira de prestar-se homenagem à Força Criadora, é colaborar na obra universal, trabalhando ativa e honradamente, servindo à causa comum com desprendimento e simplicidade e cumprindo o que determinam as suas leis.

A religião deveria ser, por excelência, a da fraternidade, a do companheirismo, a da cooperação eficaz, à da lealdade, a da operosidade, a do amor cristão, a da honestidade, a da compreensão, a da humildade. O melhor meio de agradar-se a uma pessoa, não é trazer o seu retrato acorrentado ao pescoço, num gesto exibitório, mas respeitá-la, cooperar com ela, solidarizar-se com as suas atividades, empenhar-se pela sua felicidade. A religião contemplativa há de ceder lugar à religião dinâmica, de ação, de movimento construtivo, de atividade produtiva. 

A Força Criadora não tem religião senão a do Trabalho, que produz evolução na constante transformação do Universo. Cada criatura é uma partícula desse Poder, dessa Força Criadora, e precisa agir como seu reflexo, ao externar as suas propriedades espirituais.

Isso demonstra que o que mais vale é a bem orientada ação do indivíduo, segura, prudente, honesta; e não, como geralmente se pensa, a liturgia, tão do agrado dos que apoiam as pompas, as alegorias místicas e exterioridades ostensivas e faustosas.
A religião materialista mostra-se como se fora uma contingência da vida social, da vida mundana, sem aquele significado confirmatório da pureza interior, que faz com que as pessoas se revelem irredutíveis no propósito firme de não se associarem ao erro, à negligência e ao descaso pelas coisas sérias da vida.

Não se desconhece que em muitos, a religião formalística exerce a sua influência atemorizante; representa um freio, uma contenção para quem não dispõe de recursos individuais para, por si só, fazer frente às tentações do mundo. Evita-se, com ela, um mal com outro mal. Isto porque a esses que se sentem frágeis para resistir aos convites da matéria, a religião antepõe uma resistência, ou por meio de ameaças aos horrores do "inferno", ou criando o temor pela suposta "ira de Deus". São como as crianças a quem alguns enganam com histórias do bicho-papão, para impedir que desobedeçam, mas nelas criando um complexo de covardia.

As fórmulas religiosas atendem bem aos anseios das criaturas mundanas, que desejam ver acomodadas as suas aspirações terrenas, egoístas, gananciosas e usurpadoras, aos preceitos chamados divinos, como o do perdão.

Sendo um organismo plasmado pelo homem, a religião se divide em tantos ramos quantos são os moldes que se ajustem às várias índoles dos indivíduos. Cada grupo, com o seu modo de sentir e ver, encontra num dos ramos aquela soma de promessas que melhor o satisfaz. Promessas irrealizáveis e vãs, acalentadas pelo estímulo de uma fé que se extrai do inverosímil.

Estas palavras não são dirigidas aos religiosos que ainda precisem viver nessa fase de ilusórios encantamentos, mas aos despertos, que reconhecem a sua união com a Força Criadora, como suas partículas integrantes. Estes últimos encaram a vida com a indispensável realidade, sem temores, e com o desejo de conhecer as coisas na sua verdadeira expressão.

Para muitos, a religião representa um veículo na vida social, e nada mais, com o qual se podem fazer exibições, sob o pretexto de uma mistificante devoção. A religião em nada se assemelha àquela simplicidade evocativa de espiritualidade, tão bem caracterizada no procedimento do Mestre Nazareno.

Jesus não fundou nenhuma religião, limitando-se a difundir ensinos de elevada moral, com o propósito de orientar os que quisessem seguir pelo caminho da espiritualidade, dando exemplos de humildade dignificante e demonstrando a força do pensamento e fortalecer o espírito de renúncia e a estimular o desapego pelos atrativos mundanos, ao exaltar as virtudes espirituais e eternas que todos possuem e precisam revelar e desenvolver.

Procurem ir abrindo, aos poucos, os olhos da alma, para verem mais distante. Tratem de não ficar jungidos a leituras que só mostram uma face da moeda, e procurem ver e examinar o que há do outro lado. Tenham confiança na Sabedoria que os há de iluminar. Se não procurarem a iluminação, nunca chegarão a ela.

Jesus dizia: – “examinai todas as coisas, e retende o que for bom”. Ora, como se poderá examinar alguma coisa, sem leitura, sem estudo, sem pesquisa?

Pergunta-se aos religiosos: não lhes parece que os que merecem semelhante liberdade de ação, mostram-se, em realidade, bem seguros dos seus conhecimentos?

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Autor: Luiz de Souza.



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