sábado, 11 de junho de 2016

O SER

De modo paradoxal, o mais importante engano dos novos ateístas é o mais óbvio de todos os detalhes: eles mesmos. A maior realidade suprafísica/física que conhecemos por experiência é quem a experimenta, isto é, nós mesmos. Assim que percebemos que há uma perspectiva de primeira pessoa, "eu", "me", "mim", "meu", e assim por diante, encontramos o maior e mais excitante mistério. Eu existo. Parafraseando Descartes, "eu existo, logo penso, percebo, intento, interajo". Quem é esse "eu"? Onde está?
Como surgiu? O ser não é apenas alguma coisa física, assim com também não é apenas alguma coisa suprafísica. Você não está numa particular célula cerebral ou em alguma outra parte de seu corpo. As células de seu corpo não param de mudar, no entanto você é sempre o mesmo. Se estudar os neurônios, verá que nenhum deles tem a propriedade de ser um "eu". Claro que seu corpo faz parte integral do que você é, mas é um corpo porque é formado como tal pelo ser. Ser humano é estar num corpo e numa alma.

Numa famosa passagem de seu livro Tratado da natureza humana, Hume declara: "Quando entro mais intimamente naquilo que chamo de mim mesmo, nunca posso me encontrar sem uma percepção e nunca posso observar nada além dessa percepção". Aqui, Hume nega a existência de um ser simplesmente argumentando que "eu" não consegue encontrar o "mim". Mas o que unifica suas várias experiências, que permite que ele esteja consciente do mundo externo, que permanece o mesmo o tempo todo? Quem está fazendo essas perguntas? Ele presume que "mim" é um estado observável, como seus pensamentos e sentimentos. Mas o ser não é alguma coisa que possa ser assim observada. É um constante fato de experiência e, na verdade, o terreno de toda experiência.

De todas as verdades disponíveis para nós, o ser é, ao mesmo tempo, o mais óbvio e inexpugnável, e o mais letal para todas as formas de fisicalismo. Para começar, a negação do ser não pode nem ser declarada sem contradição. À pergunta "como eu sei que existo", um professor replicou: E quem está perguntando? O ser é o que somos, e não o que temos. É o "eu" do qual emerge nossa perspectiva de primeira pessoa. Não podemos analisar o ser porque não é um estado mental que pode ser observado ou descrito. A realidade mais fundamental da qual todos nós temos consciência, então, é o nosso ser, e uma compreensão do ser lança luz sobre todas as questões de origem e revela o sentido de realidade como um todo.

Sabemos que o ser não pode ser descrito, muito menos explicado, em termos de física ou química. A ciência não descobre o ser, o ser descobre a ciência. Entendemos que nenhuma explicação da história do universo é coerente se não pode explicar a existência do ser.

A ORIGEM DO SUPRAFÍSICO

Então, como a vida, a consciência, o pensamento e o ser começaram? A história do mundo mostra o repentino surgimento desses fenômenos, a vida aparecendo logo depois do resfriamento do planeta, a consciência misteriosamente manifestando-se na explosão cambriana, a linguagem emergindo na "espécie simbólica", sem nenhum precursor. Os fenômenos em questão vão dos sistemas de processamento de símbolos e códigos, de agentes que buscam metas e manifestam intenção, até a percepção subjetiva, o pensamento conceitual e o ser humano. O único modo coerente de descrever esses fenômenos é dizer que eles são dimensões diferentes de existência, suprafísicas, de uma maneira ou de outra. Estão totalmente integrados ao físico e, ainda assim, totalmente "novos". Não estamos falando de espíritos em máquinas, mas de agentes de diferentes tipos, alguns conscientes, outros conscientes e pensantes. Não há vitalismo ou dualismo, mas uma integração que é total, um holismo que incorpora o físico e o mental.

Embora os novos ateístas tenham falhado em compreender a natureza ou a fonte da vida, a consciência, o pensamento e o ser, a resposta para a questão da origem do suprafísico parece óbvia: o suprafísico só pode ter sua origem numa fonte suprafísica. A vida, a consciência, a mente e o ser só podem vir de uma Fonte viva, consciente e pensante. Se somos centros de consciência e pensamento capazes de conhecer, amar, intentar e executar, não vejo como esses centros poderiam vir de algo incapaz de tudo isso.

Embora simples processos físicos pudessem criar complexos fenômenos físicos, não estamos preocupados com a relação entre simples e complexo, mas com a origem dos "centros". É simplesmente inconcebível que qualquer matriz material possa gerar agentes que pensam e agem. A matéria não pode produzir conceitos e percepções. Um campo de força não planeja nem pensa. 

Assim, através da razão e da experiência, ganhamos a percepção de que um mundo de seres vivos, conscientes, pensantes, tem de ter como origem uma Fonte viva, uma Mente.

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Autor: Antony Flew



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