sexta-feira, 24 de junho de 2016

O DOGMATISMO

Giordano Bruno, condenado à fogueira pela inquisição católica em 1600, refutava a crença em verdades absolutas. São dele essas palavras: "Nunca deve valer como argumento a autoridade de qualquer homem, por excelente e ilustre que seja... É sumamente injusto submeter o próprio sentimento a uma reverência submetida a outros; É digno de mercenários ou escravos e contrário à dignidade humana sujeitar-se e submeter-se; É suma estupidez crer por costume inveterado; É irracional conformar-se com uma opinião devido ao número dos que a têm... É necessário procurar sempre, uma razão verdadeira e necessária..."

No processo de institucionalização do cristianismo, os chefes cristãos, ainda nos primeiros séculos, logo após a morte dos apóstolos, viram-se diante da necessidade de estabelecer os limites entre aquilo que eles achavam ser "certo" e aquilo que eles consideravam ser "errado" para a doutrina cristã. O processo de institucionalização da igreja exigia o estabelecimento de limites entre a "verdade" e o "erro". Só assim seria possível determinar quem era e quem não era cristão.

Na verdade, em qualquer sistema pautado pelo poder de uns sobre os outros, é fundamental que se disponha de recursos que facilitem a distinção, a caracterização e a classificação. Em quase todos os sistemas onde há hierarquia, prima-se pelos uniformes e pelos distintivos de classes. Quanto mais claros e objetivos forem os distintivos, mais fácil perceber a quem se domina. Mais fácil perceber quem se encaixa, ou não, nos moldes e nos estereótipos estabelecidos.

Com o cristianismo institucionalizado não foi diferente. Para ele prosperar, tornou-se necessário estabelecer as classes de poder, formar as estruturas de mando e comando e, principalmente, expurgar as idéias consideradas "falsas", as chamadas "heresias". Os líderes institucionais, reunidos em concílios, formaram a ortodoxia cristã, ou seja, as doutrinas que julgavam ser essenciais para o homem se chegar a Deus. Definiram as "regras de fé", os credos, as formas de adoração, os lugares de adoração e os títulos eclesiásticos. Estabeleceram aquilo que convencionaram ser a "verdade cristã". Um conjunto de interpretações teológicas e morais, pelas quais cada cristão deveria formar o seu pensamento, a sua fé e a sua conduta. Essa "verdade" passou a ser imposta com muito autoritarismo para se inibir qualquer pensamento divergente.

Surgiram, assim, as leis da instituição religiosa, as leis da igreja, a profissão de fé, que, pouco a pouco, passou a ser assimilada e disseminada pelos cristãos como a "lei de Deus". Para fazer parte da igreja, e o discurso dizia que só havia salvação dentro da igreja institucionalizada, o novo crente deveria confessar que estava "de acordo" com as regras e com as leis estabelecidas. Só depois dessa confissão pública é que o indivíduo poderia receber o batismo e os sacramentos cristãos. Desta forma, o comportamento individual, social e familiar; as doutrinas, os dogmas, as crendices e a forma de governo da instituição passaram a ser impostos a toda pessoa que pretendesse ser cristã, como se esse conjunto de regras fosse algo imprescindível para o indivíduo se "salvar".

Vê-se aqui que a igreja institucionalizada, muito cedo, usurpou o direito de consciência de cada cristão, e passou a manipular o pensamento, o entendimento e o comportamento de quem pretendesse se achegar ao Cristianismo. Assim, o céu, Cristo, Deus, só eram acessíveis àqueles indivíduos que seguissem as formalidades havidas como "certas". Do lado de fora do sistema dizia-se que estava o erro, a mentira, a heresia. E até hoje, quem é diferente, quem está do lado de fora do sistema é discriminado, marginalizado e tachado de ímpio, rebelde, ou perdido.

Inicialmente, o catolicismo formulou o "Credo" e depois o "catecismo" como conjunto de regras fundamentais e imprescindíveis para alguém se salvar. E, posteriormente, as igrejas protestantes, seguindo os mesmos critérios, estabeleceram as "doutrinas", as confissões e as regras de fé de cada segmento.

Até que após a Reforma Protestante apareceram muitas instituições divergentes das tradições católicas, no entanto a maioria dessas instituições conservou o mesmo dogmatismo religioso que caracteriza toda religião formal e institucionalizada. Todas elas alardeiam que possuem a "verdade", a interpretação certa e infalível das Escrituras. Proclamam que a verdadeira interpretação da Bíblia, e por extensão, a "doutrina" que salva, está em seu poder, como se o processo de salvação estivesse condicionado à observância rigorosa de uma regra "correta" e "infalível".

Rubem Alves afirma que "a tradição protestante é de protesto, de resistência a todas as formas de autoritarismo e dogmatismo" [...] O catolicismo definiu a sua integridade como Igreja em torno do conceito de unidade. O protestantismo, ao contrário, ignora o problema da unidade e se organiza em torno da questão da verdade. [...] Ao privilegiar a questão da verdade, (o protestantismo) foi obrigado a estabelecer padrões relativamente rígidos daquilo que era tido como a doutrina verdadeira. Com isto se criou um espaço institucional ideologicamente homogêneo, mas destituído de opções, no qual os desvios teológicos não podem ser tolerados. 

A proliferação de seitas protestantes, frequentemente citada como evidência da liberdade de consciência do fiel protestante, é na verdade um sintoma de que o espaço institucional é de tal maneira rígido de molde a não permitir a existência de um pensamento desviante dentro dos seus limites."E conclui que a obsessão pela verdade e o dogmatismo intolerante que ele traz consigo obrigou o protestantismo a fabricar mecanismos institucionais cuja função é vigiar, punir e eliminar.

Entre os crentes, se alguém aceita as doutrinas da instituição, tem-se o sinal característico da conversão. É sinal de que o indivíduo deixou de ser um "perdido" e se tornou um "salvo". O novo crente só é admitido na comunidade se professar publicamente que está de acordo com a "verdade", ali proclamada.

Desta forma, ao se ligar a uma igreja, o indivíduo é "castrado" de sua liberdade de ler e interpretar o texto bíblico. Ao se submeter às regras já estabelecidas, ele é obrigado a abdicar da sua independência para fazer a sua própria leitura, de mundo e das Escrituras judaico-cristãs. Tudo agora tem de ser interpretado de acordo com os paradigmas pré-estabelecidos pela denominação religiosa. O discurso da igreja é imperativo. É ele que passa a direcionar o indivíduo em como pensar, o que pensar, o que falar, como interpretar, como adorar, o modo "certo" de se apresentar perante Deus e o lugar "certo" para se adorar a Deus.

Qualquer comportamento ou interpretação divergente daquilo que é instituído pela cúpula da organização é visto como "erro", mentira, heresia e pecado, e o crente "rebelde" passa a ser visto com reservas, passa a ser discriminado, rejeitado e pressionado, até ser expulso. "Ora, se assim é, qualquer instituição que tenha mecanismos para identificar e eliminar o desvio está comprometida com a eliminação do livre exame e, portanto, da liberdade."

Fica evidente que os crentes não possuem essa tão proclamada liberdade que se prega nos púlpitos evangélicos para interpretar o texto bíblico. Eles não podem produzir novas idéias e novos raciocínios. Eles não podem ver as coisas por novos ângulos. A política institucional é rígida para impedir qualquer ideia nova. Desta forma, tornam-se apenas consumidores de uma "verdade" pré-estabelecida, formada, pronta, fechada e inquestionável. Consequentemente, o indivíduo submetido a esse sistema está longe de ser um ser livre, mas é alguém que se rendeu, que se escravizou a uma interpretação imposta por outro indivíduo, "senhor da chibata", representante da instituição.

Para receber os "sacramentos cristãos", cada crente se vê obrigado a confessar a "verdade" produzida por outro indivíduo, uma interpretação alheia, uma doutrina que, muitas vezes, não lhe convence o espírito, mas lhe é imposta pela autoridade de quem manda na igreja. Desta forma, para se ser cristão, "para se salvar", o crente precisa comprar um "pacote" de doutrinas que outra mente idealizou e formalizou. Um pacote inteiro, já pronto, fechado, e que é brutalmente imposto, sob ameaça de maldição e excomunhão. E assim, embora se proclame liberdade em cada púlpito cristão, essa liberdade é apenas retórica discursiva, porque na prática, o crente continua refém dos sistemas institucionalizados de formulação do pensamento. Continua refém de uma interpretação que a instituição diz ser imprescindível para se alcançar a tão almejada salvação.

A Reforma, pois, não se completou, apenas mudaram os que mandam e aqueles que se acham legítimos para elaborar as regras. Mudaram os nomes, os símbolos, os mitos, os dominadores. E os dominados continuam sob o jugo de outras "verdades".

Lutero declarava que "se existe um referencial sagrado para o comportamento, se existe um lugar da verdade para o pensamento, tais lugares não se confundem com os lugares do poder, não importa que o poder tenha sido legitimamente constituído. O sagrado e a verdade não habitam as instituições, mas invadem o nosso mundo através da consciência." Isto quer dizer que é absolutamente incoerente qualquer instituição dogmática falar em liberdade nos seus círculos (embora o próprio Lutero tenha se tornado dogmático).

No entanto, deixar cada consciência extrair a verdade por si só é falar em pluralidade de interpretações. Isto seria a extinção do sistema eclesiástico hierarquizado. Por não suportar a pluralidade de interpretações, uma única consciência, revestida de uma autoridade mística, estabelece o que todos devem professar. E assim surge o dualismo que caracteriza o sistema: certo ou errado, salvo ou herege, verdade ou mentira. 

Pouquíssimos cristãos percebem que aqui não se pode falar em "verdade", porque essa interpretação infalível decretada pela cúpula do poder, nada mais é do que a interpretação que os homens que comandam a organização fazem do texto bíblico.

Salienta-se muito sobre os púlpitos cristãos que a salvação depende da obediência a essa "doutrina", pois a salvação está intimamente vinculada a "verdade" que a igreja proclama. Por isto, criou-se um grande receio entre os crentes de pensar diferente do que a organização prega. Isto seria uma "heresia". Ser considerado um herege, no passado cristão, era um grande passo para a tortura e para a morte por apedrejamento, pela forca ou na fogueira. E ainda hoje, entre os crentes, pensar diferente da doutrina da instituição, é tido como alta traição.

Para resguardar a doutrina de qualquer questionamento ou crítica, o discurso religioso instituiu uma arma poderosa: o medo. Ao cristão se diz que é perigoso pensar diferente. O inferno, castigo eterno, demônios, maldições, hereges, tudo isto é realçado sobremaneira, com a finalidade de inibir as idéias divergentes. Realça-se a ferocidade de um deus pronto a punir àqueles que não concordam com a "verdade" da instituição. Esses são os desobedientes. Os rebeldes. Os hereges. À fogueira.

Qualquer contestação aos rudimentos e às regras "cristalizadas do passado" é associada à rebelião de Satanás. Por isto o rebelde precisa ser excluído. Quem não aceita "a verdade" é considerado rebelde, como Satanás. E assim, pelo medo, controla-se as mentes. Pelo medo, forma-se o fiel. O ambiente institucionalizado não admite outra verdade. Por isto sobressai o discurso repetitivo e a justificação. Enaltece-se as tradições. Santifica-se o passado.É a afirmação e a reafirmação de dogmas estabelecidos pelos "ídolos" de um passado longínquo e remoto.

Esse hermetismo dogmático dentro das instituições religiosas cristãs está intimamente ligado a outro mito criado pela igreja: a infalibilidade dos chefes institucionais. Se a doutrina for reformulada, isto indica que os homens do passado, que formularam a doutrina, não foram tão inspirados. Erraram. Se os homens veneráveis do passado erraram, conseqüentemente os do presente também podem errar. Isto é impensável. Não se pode por em dúvida a capacidade dos chefes institucionais de receber a "verdade" diretamente de Deus. Reformas são impensáveis onde se diz ter alcançado a perfeição. Por isto a doutrina precisa ser inquestionável e inflexível. O passado e as tradições são divinizados e idolatrados. Os homens do passado são venerados.

Em nome do passado, a organização fecha-se e não se discute as velhas "verdades". A "doutrina" e os dogmas têm que ser preservados, mesmo sabendo que nova realidade já se estabeleceu. Quanto mais se resignar, não pensar, não duvidar, melhor. Quanto mais crédulo e subserviente, melhor para a manutenção e sustentação do domínio de uns sobre os outros. "E vamos caminhando, inutilmente, reconhecendo as pedras, identificando a voz da autoridade, ouvindo o barulho típico da tesoura de podar que corta um broto novo... O futuro deve ser uma continuação do passado. As mesmas idéias. A verdade já foi cristalizada em séculos idos. Proibidos de explorar o novo, de pensar o insólito..."

O dogmatismo tem de ser autoritário. É de sua essência não tolerar o pensamento divergente e tentar inibi-lo com aspereza, brutalidade e violência. Esse comportamento agressivo e intransigente é o escudo com que os chefes cristãos tentam proteger o dogmatismo eclesiástico de qualquer idéia que possa ameaçar a "doutrina". Muitas igrejas proíbem o estudo e o pensamento crítico, impõem regras de comportamento, regras de se vestir, de ver, ouvir, falar. Cultuam os costumes dos antepassados e resistem ao progresso e ao avanço tecnológico. Tudo o que é moderno, que não se encaixa nas concepções herdadas da tradição, é visto como "pecado", ou "obra do demônio". Algumas até promovem e incentivam a segregação social de seus membros como forma grotesca de engessar a "verdade", tentando protegê-la de eventuais questionamentos. Seus críticos são tachados de endemoninhados.

No entanto, esse comportamento autoritário, longe de "proteger a verdade", demonstra que existem falhas de raciocínio e lacunas na formulação da doutrina. Falhas que devem ser escondidas. E a melhor forma para inibir a descoberta dos pontos falhos é a imposição inflexível, o incentivo a uma credulidade supersticiosa e o autoritarismo religioso. O espírito autoritário é sempre inseguro e medroso. Ele se impõe, agride, e ameaça por causa do medo de ser destituído. Medroso de ser abatido, ele abate. Medroso de ser ferido, ele mata.

As instituições cristãs são frágeis, incoerentes, desnecessárias, e por isto elas têm muito medo de que essa fragilidade transpareça. Os seus chefes têm medo de que os crentes percebam que eles não são tão imprescindíveis como se apresentam. Têm medo de perder o poder. E o medo se manifesta de forma sutil. Ele se mostra na arrogância, na agressividade, semelhantemente ao felino que quando se vê ameaçado iça o pêlo para se parecer mais temível. Rosna. Ameaça.

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Autor: José Peres Júnior 



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