segunda-feira, 6 de junho de 2016

O CARÁTER DE JESUS

Nada do que é dito aqui pode se aplicar, mesmo com o desrespeito mais distante, ao verdadeiro caráter de Jesus Cristo. Ele era um virtuoso e um homem amável. A moral que ele pregava e praticava era benevolente. Sistemas semelhantes, embora de âmbito moral, foram pregados por Confúcio e por alguns dos filósofos gregos muitos anos antes; pelos quacres desde então e por muitos homens bons de todas as épocas e que ele, Jesus, não foi excedido por nenhum.
Jesus Cristo não escreveu nenhum relato de si mesmo, do seu nascimento, de sua filiação ou qualquer outra coisa. Nenhuma linha do que é chamado o Novo Testamento é de sua própria escrita. A história dele é inteiramente o trabalho de outras pessoas e quanto à explicação dada para a sua ressurreição e ascensão, foi a contrapartida necessária para a história de seu nascimento. Seus historiadores trouxeram-no ao mundo de uma maneira sobrenatural e foram obrigados a tirá-lo novamente da mesma maneira ou a primeira parte da história teria caído por terra.

O estratagema miserável com que esta última parte é contada excede qualquer coisa que veio antes dele. A primeira parte, a da concepção milagrosa, não era uma coisa que se podia chamar de publicidade e, portanto, os autores desta parte da história tiveram uma vantagem, que embora não possa ser creditada, não poderia ser detectada. Eles não podiam esperar para provar isso, porque não era uma daquelas coisas que se admitem provas e era impossível que a pessoa para quem foi dito pudesse prová-las por si só.

Mas a ressurreição de um morto da sepultura e sua ascensão pelo ar é uma coisa muito diferente, no tocante às provas requeridas e em comparação à invisibilidade da concepção de uma criança no ventre. A ressurreição e ascensão, supondo que elas tenham ocorrido, requerem testemunhas públicas e oculares, como em uma ascensão de um balão ou o Sol ao meio-dia, em toda a Jerusalém pelo menos. Uma coisa que todo mundo é obrigado a acreditar, mas que exige provas e evidências de que deveriam ser iguais para todos, como a visibilidade pública deste último ato relacionado ser a única prova que poderia dar crédito à primeira parte. 

Toda ela se desmorona, porque evidência nenhuma nunca foi dada. Em vez disso, um pequeno número de pessoas e não mais do que oito ou nove, são apresentadas como testemunhas para o mundo inteiro, para dizer o que viram e todo o resto do mundo é chamado a acreditar. Mas parece que Tomé não acreditou na ressurreição e, como eles dizem, não iria acreditar sem ter demonstração manual e ocular por ele mesmo. Então, também não vou acreditar, pois a razão é tão boa para mim, como foi para Tomé.

É em vão tentar aliviar ou disfarçar este assunto. A história, no que concerne à parte sobrenatural, tem todos os sinais de fraudes e imposição estampada em seu rosto. Quem foram os autores, é impossível a nós saber, como também é impossível saber se os livros foram escritos pelos nomes contidos nele. A melhor evidência que sobreviveu até hoje nesse caso são os judeus. Eles são descendentes regulares dos povos que viveram no tempo e região daquela suposta ressurreição/ascensão e dizem que isso não é verdade.

Há muito tempo, pareceu-me uma estranha inconsistência citar os judeus como uma prova de veracidade da história. É o mesmo que se um homem dissesse: “Eu vou provar a verdade do que eu lhe disse, trazendo aqui as pessoas que dizem que ela é falsa”. Que uma pessoa como Jesus Cristo existiu e que ele foi crucificado, como era o modo de execução daquele tempo, são relações históricas estritamente dentro dos limites da probabilidade. 

Ele pregou de forma excelente sobre moralidade e a igualdade do homem, mas ele também pregou contra a corrupção e a avareza dos sacerdotes judeus, o que acabou conquistando todo o ódio e desejo de vingança deles. A acusação de que os sacerdotes impuseram contra Jesus era a de sedição e conspiração contra o governo romano. Era provável que o governo romano pudesse ter alguns receios secretos sobre os judeus e sua doutrina, assim como os sacerdotes judeus discordavam dos métodos romanos. Mas, entre os dois, no entanto, este reformador virtuoso e revolucionário perdeu a vida.

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Autor: Thomas Paine



Um comentário:

Venilton Matos disse...

Muito salutar a forma como Paine separa o humano do divino, o milagre e a verdade histórica.