sábado, 25 de junho de 2016

MITOS E SONHOS NA ESCRITURA CRISTÃ

Os escritos do Novo Testamento são ligados por uma longa história dogmática. Contudo, o escopo de nossa pesquisa total e o método comum adequado devem nos permitir ir além das visões específicas sobre a autoridade desses escritos. Além disso, temos o apoio da desordem radical da tradição bíblica em nosso tempo. Mas não podemos deixar de reconhecer a influência decisiva dos mitos bíblicos e cristãos sobre o mundo ocidental e o fato de que, para o bem ou para o mal, essa história ainda condiciona as perspectivas e atitudes contemporâneas conscientes e inconscientes. Tampouco podemos fechar os olhos ao fato de que, assim como outras vastas visões culturais do mundo, a visão cristã inicial tinha e tem uma particularidade que não é facilmente receptiva à síntese convenientemente buscada pela ciência social.

O tópico "Mito e Sonho na Escritura Cristã" requer mais algumas observações preliminares. Pelo menos duas fases da discussão de "mito" no Novo Testamento já foram trabalhadas: a tese do Cristo-mito, de Drews e outros, há tempos tornou-se obsoleta; a principal discussão mais recente, centralizada em Bultmann, sobre a desmitologização do Novo Testamento, só pode estar realmente ativa hoje se o termo "mito" for considerado em um sentido altamente flexível, incluindo mitopoese e dramatizações herdadas da existência ou dos veículos imaginativos da representação do mundo. A escritura cristã está cheia disso. Sob essa óptica, podemos passar por cima do fato de que o termo grego para mito, mythos, só ocorre cinco vezes e nos últimos escritos do cânone, sempre no sentido pejorativo de fábulas heréticas e superstições.

O vocabulário de "sonho" e fenômeno do sonho é mais abundante e diversificado em nossos escritos do que o de "mito". Na maioria dos casos, os usos são previsíveis nesses tipos de textos subliterários desse período. A associação dos sonhos a uma orientação era uma tradição tanto no mundo hebraico quanto no pagão, um clichê no estilo narrativo. Mesmo em situações mais significativas, por exemplo, quando a campanha de Paulo é dirigida através do Bósforo para a Europa por seu sonho com um homem da Macedônia que rogava "Passa à Macedônia e vem em nosso auxílio" (Atos 16.9), o interesse recai mais na instrução do que no estado psíquico com que é recebida. Nesses casos nem existe um oráculo enigmático que exija interpretação. 

Na verdade, a interpretação de sonhos (distinta da explicação de visões) é totalmente ausente do Novo Testamento. Embora Deus permaneça oculto, ele "não fala ambiguamente. Ele deseja ser compreendido". "Nenhuma testemunha do Novo Testamento pensou em basear a mensagem central, o Evangelho, ou qualquer parte essencial, em sonhos". Essa parcimônia de fenômenos de sonhos corresponde a principal tendência do judaísmo tardio do Segundo Templo e contrasta com o panorama luxuriante do helenismo contemporâneo e ale mesmo com o ressurgimento desses temas na tradição rabínica.

O que dissemos até agora se relaciona com o sonho no sentido estrito de uma revelação durante o sono. Por outro lado, o vocabulário do Novo Testamento para "visão", seja no estado desperto ou "à noite", é muito mais abundante e significativo. O cânone está cheio de visões e audições, apontando para o foco principal dessa série, a dinâmica mais profunda da nossa consciência humana. Na verdade, o uso mais significativo do termo grego para "sonho", onar, no Novo Testamento é o que aparece em paralelo com um dos termos para "visão", horasis, como na citação do profeta Joel no Livro dos Atos:

e vossos jovens terão visões,
e vossos anciãos sonharão (Atos 2.17)

Esta passagem faz parte do discurso de Pedro no primeiro Pentecostes e é característica por se referir a visão das últimas coisas. Fazemos uma observação fundamental quando dizemos que "mito e sonho" nas escrituras cristãs são moldados pela consciência escatológica. Todo símbolo criativo é governado pelo sentido da transformação mundial em curso e pelos objetivos últimos alcançáveis, sejam sociais, cósmicos ou individuais. Todo o Livro da Revelação ilustra isso.

O trabalho compreende uma série de visões e audições no quadro mais amplo de uma única revelação ou apokalypsis comunicada ao autor, que a "viu" na ilha de Patmos quando "estavaem espírito no dia do Senhor". Embora essa categoria de visão seja basicamente uma convenção literária e apesar de boa parte da composição do material mitológico ter sido tomada emprestada, o livro todo e uma leitura mitopoéica da experiência contemporânea da comunidade. É um exemplo do que chamaríamos de surrealismo animado pelo sentido de crise total e metamorfose mundial que caracterizou os primórdios do cristianismo.

Nosso tema já nos levou ao reconhecimento da importância no Novo Testamento daquilo que a psicologia da religião chamaria de experiência supranormal, extática e mística. Poderíamos listar não só sonhos, visões, audições juntamente com os transes associados, epifanias, teofanias, mas também a glossolalia ou "falar em línguas" (que poderia ser entendido como a língua dos anjos), arrebatamentos aos céus e relatos de várias transações quase-mágicas. Às vezes nos deparamos com um mundo de conjuros e mentalidade arcaica.

Quando Jesus dá um novo nome a Pedro ou aos filhos de Zebedeu, reconhecemos a idéia arcaica, por exemplo, entre os antigos árabes, de que o sheik tinha poder de mudar tanto o nome como a natureza de um membro da tribo. O poder primitivo da palavra falada aparece novamente na carismática saudação de "Paz", dita pelos discípulos de Jesus enquanto viajavam como mensageiros pelas aldeias, palavra esta que, se não for aceita, retorna ao que a falou e deixa os que a ouviram expostos aos poderes do mal. Ou essa potência da fala pode tomar a forma de um pronunciamento ritual de condenação, como na lenda da morte de Ananias e sua mulher.

Um exemplo interessante do que poderíamos chamar de levitação ocorre nos relatos sobre Jesus andando no mar. A variação nos três Evangelhos permite rastrear a lenda desde sua forma mais desenvolvida, retornando a um estádio mais primitivo. A forma mais antiga pode ser reconhecida no Evangelho de João. Aqui Jesus aparece aos discípulos que remavam aflitos, a noite, para reconfortá-los. Não é dito que eles de fato o receberam na barca. A seqüência dessa manifestação é que "imediatamente o barco chegava a terra para onde se dirigiam". O que temos aqui, como diz Rudolf Otto, "não [é] um mero milagre, mas uma categoria bem definida de apparitio, especialmente a de uma figura carismática que, em tempos de necessidade e perigo mortal, aparece em forma de fantasma e oferece ajuda".

Depois o episódio é transformado, primeiro em Marcos, em que Jesus realmente presente entra na barca, e depois em Mateus, em que Pedro também faz uma tentativa de andar sobre a água. Assim, nessas duas versões posteriores, a lembrança de uma aparição é transposta a categoria de levitação, também fartamente ilustrada na história da religião. A confiança de Otto na historicidade da aparição original aos discípulos não precisa ser aceita, mas sua documentação sugere a base cultural que permitia a ocorrência desses tipos de relatos e sua elaboração. 

Concepções quase-telepáticas, como ações à distância, são claramente exemplificadas na relação de Paulo com a Igreja em Corinto. Embora ele escreva do outro lado do Egeu a respeito de um caso de disciplina, assegura a igreja que estará presente juntamente com o Espírito Santo quando for conduzido um ato formal de excomunhão contra o ofensor, ação esta que, se analisada com realismo, acarreta sua provável morte.

Como indicamos, todos esses tipos de temas e seus gêneros narrativos são previsíveis nos escritos populares da época. Mas o movimento inicial cristão surgiu de profundezas tais que se fez realmente acompanhar por muitos tipos de fenômenos psíquicos e carismáticos,tanto assim que a discriminação entre eles se tornou uma preocupação prioritária. 

Essas experiências supranormais eram comumente atribuídas ao Espírito, isto é, o Espírito de Deus, mas algumas de suas operações eram mais significativas do que outras e também havia falsos espíritos. Na Igreja Corintiana, por exemplo, Paulo foi confrontado com um verdadeiro tumulto de manifestações extáticas, associadas a idéias gnósticas ou afins e à ética antinômica. Ele discute isso tudo sob o título de "visões e revelações". E observa que ele próprio é tão iniciado quanto qualquer um com respeito a "dons espirituais". De fato, seja dentro ou fora do corpo, ele fora levado ao terceiro céu e ouvira assuntos proibidos. Porém, ele insiste, não é nada para se gabar e pode conduzir a fantasias de falsa transcendência, se não houver subordinação a responsabilidade pé-na-terra, como no caso do próprio Cristo.

Com relação a Jesus, eu concordaria em chamá-lo de carismático. A categoria de "místico" varia tanto em diferentes contextos que deveria ser usada a respeito de Jesus somente da forma mais segura. Certamente, se implicar ênfase no estado psicológico em si ou no uso de disciplinas e técnicas especiais para atingir um tal estado, então não se aplica a ele. Contudo, no caso de Jesus, como no de São Francisco, temos uma passagem interessante do vidente com sensibilidade visionária e ao mesmo tempo o realista de mente clara. Ele vê a conexão entre questões prodigiosas num piscar de olhos e consegue cristalizar essa visão em uma parábola ou metáfora de máxima simplicidade. 

Nessa conexão deve-se ter em mente que os relatos do Evangelho de certas visões de Jesus, como as que lhe são atribuídas nas ocasiões de seu batismo e de sua tentação, bem como aquela dos três discípulos no Monte da Transfiguração, foram extensamente retrabalhadas pela tradição. Entretanto, esses exemplos, bem como as epifanias relatadas nos Evangelhos contando suas aparições após a ressurreição, atestam tanto o poder dinâmico do movimento que começou com ele quanto a poderosa linguagem mitopoéica que fez surgir.

Para concluir esta seção, as escrituras cristãs nos dão uma vasta documentação sobre sonhos, visões e meios relaciona dos de revelação e sabedoria. Os estilos e formas literários refletem essas dinâmicas mais profundas. Nossos escritos confirmam a importância da dimensão pré-racional na experiência humana. Mas as formas e condições desses fenômenos nunca são tratados de maneira sofisticada. Sua origem e operação são relacionadas ao "Espírito de Deus" e sua importância é elaborada em termos do movimento que naturalmente tinha sua raiz principal na história de Israel.

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Autor: Amos N. Wilder



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