quarta-feira, 29 de junho de 2016

JESUS COMO DEUS, OU HUMANO?

No cristianismo primitivo as visões de Cristo ficaram “cada vez mais altas” com o passar do tempo, e ele foi cada vez mais identificado como divino. Jesus foi de messias (humano) potencial a Filho de Deus exaltado a um status divino na ressurreição; um ser angélico preexistente que veio à terra encarnado como homem; a encarnação da Palavra de Deus que existiu antes do tempo e por quem o mundo foi criado; e Deus ele mesmo, igual a Deus-Pai e sempre existente com ele. Minhas crenças pessoais sobre Jesus moveram-se exatamente em sentido contrário. Comecei pensando em Jesus como Filho de Deus, igual ao Pai, membro da Trindade; mas, com o tempo, comecei a vê-lo em termos “cada vez mais baixos”, até finalmente passar a pensar nele como um ser humano que não era diferente de qualquer outro ser humano em natureza. Os cristãos exaltaram-no ao reino divino em sua teologia, mas, na minha opinião, ele era, e sempre havia sido, um humano. 

Hoje considero Jesus um verdadeiro gênio religioso com insights brilhantes. No entanto, ele sempre foi também um homem do seu tempo. E o tempo dele foi uma época de fervor apocalíptico a plenos pulmões. Jesus participou do ambiente palestino judaico do século I d.C. Nasceu e foi criado nele, e foi dentro desse contexto que ele conduziu seu ministério público. Jesus ensinou que a era em que vivia era controlada por forças do mal, mas Deus interviria em breve para destruir tudo e todos que se opusessem a ele. Deus traria, então, para a terra um reino utópico do bem onde não mais haveria dor e sofrimento. O próprio Jesus seria o governante desse reino, com seus doze discípulos servindo sob seu comando. Tudo isso aconteceria muito em breve - dentro da geração dele. 

Essa mensagem apocalíptica continua a ecoar em mim, mas com certeza não acredito nela em termos literais. Não penso que existam poderes sobrenaturais do mal que controlem nossos governos, ou demônios que tornem nossa vida miserável; não acho que vá acontecer uma intervenção divina no mundo em que todas as forças do mal sejam destruídas de modo permanente; não penso que vá existir aqui na terra um reino utópico futuro governado por Jesus e seus apóstolos. Contudo, penso que existem o bem e o mal; acho que todos nós devemos ficar do lado do bem e penso que devemos lutar vigorosamente contra todo o mal. 

Identifico-me especialmente com os ensinamentos éticos de Jesus. Ele ensinou que muito da lei de Deus podia ser resumido no mandamento de “ame o seu próximo como a si mesmo”. Ele ensinou que se deve “fazer aos outros o que gostaria que fizessem a si”. Ensinou que nossos atos de amor, generosidade, misericórdia e bondade devem chegar até “os menores, meus irmãos e irmãs” - isto é, os humildes, os párias, os pobres, os sem-teto, os destituídos. Concordo de todo coração com essas ideias e faço o meu melhor para viver de acordo com elas. 

Porém, como historiador, percebo que os ensinamentos éticos de Jesus foram ministrados de uma forma decididamente apocalíptica, com a qual não concordo. Jesus às vezes é louvado como um dos grandes professores morais de todos os tempos, e simpatizo com essa caracterização. No entanto, é importante perceber que o raciocínio por trás desse ensinamento moral não é o raciocínio que a maioria de nós usa hoje em dia. As pessoas de hoje acham que devem viver de maneira ética por uma ampla variedade de motivos - a maioria deles irrelevantes para Jesus -, por exemplo, para que possamos obter o máximo de autorrealização na vida e com isso possamos todos prosperar como sociedade a longo prazo. 

Jesus não ensinou sua ética para que a sociedade pudesse prosperar a longo prazo. Para Jesus, não haveria um longo prazo. O fim estava próximo, e as pessoas precisavam preparar-se para isso. Aqueles que vivessem conforme os padrões estabelecidos por ele, amando a Deus de todo coração e amando uns aos outros como a si mesmos, entrariam no reino de Deus que em breve apareceria. Qualquer um que escolhesse não fazer isso seria destruído quando o Filho do Homem chegasse dos céus para o julgamento. A ética de Jesus era uma “ética do reino”, pois o tipo de vida que seus seguidores viviam ao seguir esses princípios éticos seria o tipo de vida que experimentariam no reino - onde não haveria guerra, ódio, violência, opressão ou injustiça - e porque uma pessoa só poderia entrar no reino se vivesse dessa maneira. 

Não é essa a minha visão de mundo. Não acredito que exista um Deus no céu que vá mandar um juiz cósmico à terra em breve para destruir as forças do mal. Todavia, penso que os princípios éticos que Jesus enunciou naquele contexto apocalíptico são aplicáveis a mim, que vivo em um contexto diferente. Para dar sentido a Jesus, eu o recontextualizei - isto é, tornei Jesus e sua mensagem relevantes em um novo contexto - para um novo tempo, o tempo em que vivo. 

Eu argumentaria que Jesus sempre foi recontextualizado pelas pessoas de diferentes épocas e locais. Os primeiros seguidores de Jesus fizeram isso após passarem a acreditar que ele havia ressuscitado e sido exaltado aos céus: transformaram-no em algo que ele não era antes e o compreenderam à luz da nova situação. Isso também foi feito pelos autores posteriores do Novo Testamento, que recontextualizaram e compreenderam Jesus à luz de suas próprias situações, ainda mais diferentes. Igualmente os cristãos dos séculos II e III, que viram Jesus menos como um profeta apocalíptico e mais como um ser divino que se tornou humano. 

Da mesma forma os cristãos do século IV, que sustentaram que ele sempre existiu e sempre foi igual a Deus-Pai em status, autoridade e poder. E assim também os cristãos de hoje, que pensam que o Cristo divino em quem acreditam e confessam é idêntico em todos aspectos à pessoa que andava pelas vias poeirentas da Galileia pregando sua mensagem apocalíptica da destruição que viria. A maioria dos cristãos de hoje não percebe que recontextualizou Jesus, mas o recontextualizou. Todos que acreditam nele ou acatam qualquer um de seus ensinamentos fizeram isso - desde os primeiros crentes que passaram a acreditar na ressurreição até os de hoje. E assim será neste mundo sem fim. 

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Autor: Bart D. Ehrman



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