terça-feira, 14 de junho de 2016

FUNDAMENTALISMO

O termo "fundamentalismo" tem sido utilizado de modo bastante flexível no discurso recente - nos círculos acadêmicos, na mídia e também em conversas cotidianas. Por conseguinte, homens-bomba muçulmanos, missionários evangélicos e judeus ortodoxos, todos têm sido chamados de "fundamentalistas" - uma ampla utilização que induz a sérios problemas de percepção. Algumas vezes, parece que qualquer envolvimento religioso mais ardente é considerado "fundamentalista". Em vista disso, teríamos muitos benefícios com a análise das origens do termo, surgido em um contexto bastante específico do protestantismo americano.

COMO O TERMO "FUNDAMENTALISMO" SE ORIGINOU?

No início do século XX, dois abastados homens seculares de Los Angeles criaram um fundo de $250 mil (uma quantia formidável na época) para financiar a produção e a distribuição de uma série de livretos que visavam defender o protestantismo conservador do avanço da teologia liberal e modernizadora. É importante entender que, mesmo na ocasião, esse exercício foi reativo - uma reação contra tendências consideradas ameaças à verdade religiosa. A série foi chamada de "Os Fundamentos". Desde 1910, 12 livretos, no total, foram publicados e amplamente distribuídos. Quando o décimo segundo volume foi publicado, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, 3 milhões de livretos foram distribuídos, lançando o que passou a ser chamado de movimento fundamentalista no protestantismo anglófono.

O movimento foi, ao mesmo tempo, ecumênico e internacional. Apesar de a ortodoxia promulgada ter sido basicamente reformista (então representada mais vigorosamente pelo Princeton Theological Seminary), os autores incluíram proeminentes presbiterianos,
anglicanos e batistas tanto dos Estados Unidos quanto da Grã-Bretanha. Naturalmente, houve diferença significativa entre os autores. Apesar dessas diferenças, contudo, inúmeros elementos em comum definiram o movimento - insistência na autoridade exclusiva da Bíblia e dos eventos sobrenaturais nela relatados, crença na conversão e em um relacionamento pessoal com Jesus Cristo e rigoroso código moral.

Esses temas continuam a ser fundamentaispara a ampla e bastante diversificada comunidade chamada "evangélica" nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com o termo "fundamentalista" em geral rejeitado pela maior parte dos membros dessa comunidade. A designação de "fundamentalismo" é um tanto quanto duvidosa até em seu contexto protestante americano original, encobrindo diferenças significativas. E se torna ainda mais duvidosa quando aplicada a muçulmanos ou judeus, que dirá hinduístas ou budistas! Para tornar a utilização ainda mais duvidosa, há os "fundamentalistas" seculares, que representam uma grande diversidade de engajamentos ideológicos e exibem com frequência uma efusiva militância que se assemelha à de alguns movimentos religiosos.

Trata-se de um problema bastante conhecido dos cientistas sociais: os termos se tornam nebulosos quando são amplamente utilizados, tanto no vernáculo quanto no discurso acadêmico. As pessoas têm duas maneiras de lidar com isso. Indivíduos ou grupos podem evitar completamente termos desse tipo e criar uma terminologia própria nova, determinada com precisão. (Terminologias assim são tipicamente bárbaras no que se refere a seus efeitos na linguagem comum; pior ainda, tornam os textos elaborados por cientistas sociais incompreensíveis para os não iniciados - uma espécie de língua secreta.) A alternativa é aceitar os termos como de uso comum, mas buscar acentuar sua precisão para compreender melhor a realidade social à qual eles se referem. Essa é a tática que preferimos.

AS CARACTERÍSTICAS DO FUNDAMENTALISMO CONTEMPORÂNEO.

O termo "fundamentalismo", como utilizado convencionalmente nos dias de hoje, se refere a uma realidade empiricamente verificável. Três aspectos dessa realidade devem ser enfatizados. Para começar, como no caso americano prototípico, o fundamentalismo é um fenômeno reativo. Em outras palavras, não constitui um componente atemporal dessa ou daquela tradição. A reação é sempre contra uma ameaça percebida a uma comunidade que incorpora determinados valores (religiosos ou seculares). No contexto contemporâneo, a reação é justamente contra o efeito relativizante da modernidade que já discutimos.

Segue-se a isso que o fundamentalismo é um fenômeno moderno. Esse argumento foi levantado com frequência no que se refere à utilização eficiente de meios modernos de comunicação por parte dos movimentos fundamentalistas. Muito justo. Mas o fundamentalismo é moderno também em sentido mais profundo. Ele só pode ser compreendido no contexto doprocesso modernizador e relativizante. Outra maneira de descrever essa segunda característica do fundamentalismo é que, apesar de sua alegação comum de ser conservador, remontando à suposta era dourada de uma tradição em particular, ofundamentalismo é muito diferente do tradicionalismo. A diferença pode ser explicada de maneira simples: o tradicionalismo significa que a tradição é aceita sem questionamento; já o fundamentalismo surge quando o não questionamento é contestado ou totalmente perdido.

Um episódio do século XIX pode nos ajudar a esclarecer essa ideia: Napoleão III, acompanhado da Imperatriz Eugénia, fazia uma visita oficial à Inglaterra. Eugénia (cujo histórico antes de ser desposada pelo imperador não foi, digamos, exatamente aristocrático) foi levada à ópera pela Rainha Vitória. As duas mulheres eram bastante jovens e de aparência magnificente. Eugénia, a convidada, entrou primeiro no balcão real. Ela, graciosamente, se curvou aos aplausos do público, olhou graciosamente para trás, para sua cadeira, e graciosamente se sentou nela. Vitória se comportou com a mesma graciosidade, mas com uma interessante diferença: ela não olhou para a cadeira - ela sabia que a cadeira estaria lá. 

Uma pessoa verdadeiramente criada em uma tradição presume sem questionamento que a "cadeira" estará lá e pode sentar-se nela sem refletir. Um fundamentalista, por outro lado, não presume que a "cadeira" estará lá; ele deve insistir na presença da cadeira, o que pressupõe tanto reflexão quanto decisão. Segue-se a isso que um tradicionalista pode se dar o luxo de ser descontraído em relação à sua visão de mundo e relativamente tolerante em relação às pessoas que não compartilham dessa atitude - afinal, elas não passam de pessoas inferiores que negam o óbvio. Para o fundamentalista, esses "outros" representam uma séria ameaça à certeza conquistada a duras penas; eles devem ser convertidos, segregados ou, no extremo, expulsos ou "liquidados".

A característica final se baseia nas duas primeiras: o fundamentalismo é uma tentativa de recuperar o não questionamento de uma tradição, normalmente visto como um retorno ao passado imaculado (real ou imaginário) da tradição. Dado o que foi proposto nos parágrafos anteriores, essa visão é considerada ilusória. A condição imaculada não pode ser retomada e, por conseguinte, o projeto fundamentalista é inerentemente frágil. Ele deve ser continuamente defendido e escorado, o que, com frequência, é feito em tons de certeza agressiva. No entanto, como observamos, por mais que os fundamentalistas possam reprimir a memória de que seu posicionamento foi escolhido, essa memória permanece, ao lado do conhecimento de que qualquer escolha é, em princípio, reversível.

---------------

Autor: Peter Berger



Nenhum comentário: