sexta-feira, 3 de junho de 2016

DEUS SEGUNDO ARISTÓTELES

A noção de Deus na filosofia de Aristóteles (384-322 a. C.) surge como causa suficiente do mundo. Encontra-se consequentemente na dependência de noções metafísicas fundamentais.


Muito especialmente lhe ocorreu falar de Deus como causa eficiente e última do movimento. Ocupou-se menos da perspectiva oferecida pelas causas final e formal. Diferentemente, para Platão a perspectiva destacada fora a ligação para Deus através da causa final, que, de certo modo se identifica com a formal. Platão, neste particular mais metafísico que Aristóteles, embora menos preciso, se preocupou antes com a forma, ou seja de Deus como Causa Exemplar do mundo. 
Aristóteles, mais realista que Platão, explorou particularmente a questão do princípio eficiente do movimento. Não ficou, entretanto, de todo alheio aos outros aspectos. Importa advertir que o argumento pela via da contingência se alinha no mesmo nível do princípio de causa eficiente. Aristóteles explorou a causa eficiente ao ocupar-se da série das causas, em que a Primeira Causa seria uma causa incausada (ou um motor imóvel que move). Platão que, também tratou deste motor, se ocupou todavia, como já se disse, mais com as causas formal (exemplar) e final (ordem do mundo).

Uma explicação ampla do movimento foi tentada por Aristóteles. Além da causa material e formal apelou ainda para a ocorrência de um princípio eficiente, por ele chamado "princípio do movimento", e que somente os pósteros chamariam causa eficiente. 
Exprimiu-se assim, o Mestre do Liceu:

"Causa é ainda o princípio primeiro do movimento ou do repouso: o autor de uma decisão é causa de ação, e o pai é a causa da criança, e, em geral, o agente é causa daquilo que é feito, e o que faz mudar é a causa daquilo que sofre a mudança"

O conceito de metafísica na visão de Aristóteles é muito complexo, pressupõe uma ciência que se ocupa com realidades que estão além das realidades físicas e que possuem fácil e imediata apreensão sensorial sobre a natureza, deveres e propriedades no âmbito filosófico.

Num primeiro momento, Aristóteles distingue vários níveis de conhecimento como: sensações isoladas, experiência e ciência, sendo essa última fruto da segunda, onde através das observações empíricas (experiência), é formada uma noção universal a respeito de coisas semelhantes. Para Aristóteles, a ciência é superior à experiência, como ele afirma: “Nós julgamos que há mais saber e conhecimento na arte (ciência) do que na experiência. Isto porque uns conhecem a causa e outros não. Com efeito, os empíricos sabem o quê, mas não o porquê; ao passo que os outros sabem o quê e a causa”. Para Aristóteles, a metafísica é considerada como verdadeira ciência, porque ela é o conhecimento das causas, no que diz respeito às causas primeiras e aos princípios de todas as coisas. 

Aristóteles pontua quatro definições fundamentais para a ciência:

1ª. A ciência que indaga causas e princípios;
2ª. A ciência que indaga o ser enquanto ser;
3ª. A ciência que investiga a substância;
4ª. A ciência que investiga a substância supra-sensível;

Para Aristóteles, as causas fundamentais em relação a existência de algo, das quais se ocupa a metafísica, são quatro:

1ª. Causa material (como substância e essência);
2ª. Causa formal (a matéria ou substrato, a coisa em si);
3ª. Causa eficiente (aquela que dá origem ao processo e movimento);
4ª. Causa final (aquilo para o qual a coisa é feita);

Em função de Aristóteles considerar a metafísica como uma ciência teórica e não prática, ele acaba considerando como uma ciência divina por dois motivos: o primeiro porque a ciência é de plena posse de Deus e a segunda porque diz respeito as coisas divinas. Para ele, Deus é a causa e princípio de todas as coisas, ele conclui dizendo: “As outras ciências podem ser mais necessárias do que esta, mas nenhuma é mais excelente”.

Agora, num segundo momento, Aristóteles apresenta uma definição mais adequada da metafísica afirmando que: “há uma ciência que estuda o ser e as propriedades do ser enquanto tal. Não se identifica com nenhuma das ciências particulares, porque nenhuma delas se ocupa do ser enquanto tal, mas de alguma parte determinada do ser, da qual estuda aspectos particulares como fazem as matemáticas”. Ele procura mostrar que a metafísica se distingue da física e da matemática. O ponto de partida agora, é a divisão do ser em móvel e imóvel (sujeito ou não sujeito à mudança ou corrupção), o ser imóvel divide-se em material ou imaterial, a partir deste conceito, pode-se estabelecer que a física estuda apenas o ser móvel (aquele sujeito a mudanças), já a matemática, estuda o ser imóvel de ordem imaterial, e por fim, a metafísica estuda o ser imóvel de ordem imaterial, considerado por Aristóteles como o ser divino, o ponto de partida de todas as coisas.

Na metafísica aristotélica, podemos conceituar o princípio de Ato e Potência da seguinte forma: Ato é toda realidade que, como a forma, tem como características ser determinado, finito, perfeito e completo, Potência, é qualquer realidade que, como a matéria, tem como propriedades ser indeterminada, ser passiva e capaz de assumir várias determinações. As noções destes dois conceitos, constituíram uma das maiores descobertas de Aristóteles no campo da metafísica.

O tratado sobre a metafísica de Aristóteles encerra-se com um tratado sobre Deus, chamado de Existência e Natureza de Deus. Para ele, é Deus quem sustenta toda a criação, chama-o de Motor imóvel, sendo imóvel, Deus é ato puro, único, ilimitado, eterno, inteligente etc. Deus move o mundo somente como objeto conhecido e desejado, não como causa agente, ele move o mundo sem ser movido, somente o inteligível move sem ser implicado ao movimento, ele move o mundo como causa final e não como causa eficiente. Para Aristóteles, a operação de Deus é o pensamento sempre em ato, que tem por objeto a si mesmo. Esse sistema tem muito haver com o axioma hermético “O TODO é MENTE; O Universo é Mental”. 

Para concluir, Aristóteles tem uma concepção extremamente profunda de Deus, mas julga necessário, para salvar a sua transcendência, privá-lo de três operações importantíssimas: Criação, providência e conhecimento do mundo. A concepção aristotélica de Deus representa uma grande conquista do pensamento religioso grego, onde ele supera os devaneios mitológicos e da religião pública, que tinham humanizado os deuses ao ponto de os reduzirem a simples homens, Aristóteles liberta a imagem de Deus de todo antropomorfismo e coloca-o em posição soberana.

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Fontes:
MONDIN, Batista – Curso de Filosofia – Volume 1 – Coleção Filosofia – Paulus – SP – 1981
VERGEZ, André – História dos Filósofos Ilustrada pelos Textos – Freitas Bastos – RJ – 1988



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