segunda-feira, 13 de junho de 2016

COMO TERIA SIDO A MORTE DE JESUS?

Eis uma interrogação que tem ficado sem resposta historicamente fundada e, por certo, o continuará ainda por muito tempo, se não para sempre. Nesse assunto, como em muitos outros, perdemo-nos no terreno das conjecturas, pois houve o criminoso propósito de seqüestrar tudo o que nos servisse para esboçar um Jesus-homem racionalmente formado, material e psiquicamente.

Na ânsia de apresentar-nos um Homem-Deus, acabaram os próceres do movimento religioso por reduzir Jesus às proporções de um curandeiro de esquina ou milagreiro de fancaria, que é o espelho fiel onde se reflete a personagem heroína dos evangelhos canônicos. Mas, a razão e a lógica não aceitam mais esse mito; querem coisa mais concreta, e nesse desiderato, quebradas as algemas do misticismo, vão aprofundando por etapas, e gradativamente, o mistério, espancando as trevas do obscurantismo em que ele se vem escondendo há século.

Descobre-se, dessa forma, vagos indícios, e por vezes documentos antigos de grande valor que viviam avaramente escondidos na poeira dos arquivos, com cujo estudo se não se chega totalmente à verdade pelo menos encontram-se hipótese bem mais plausíveis.

É precisamente também o que se dá em relação à morte de Jesus. Todos os credos religiosos – absolutamente todos – que são derivados da lenda evangélica, evitam aprofundar este assunto, porque sabem que esbarrarão num terrível impasse, e partem, além disso, de um ponto de partida errôneo que é o considerarem Jesus mais uma entidade abstrata do que real. O resultado é que, relatada a morte com mais ou menos superabundância de recursos de imaginação e fantasia, não sabem o que fazer, ou o que foi feito do corpo. Dirão os panegiristas evangélicos que esse aspecto é apenas material, não interessando ao ponto de vista moral. É falso.

Os evangelhos relatam-nos episódios após a morte, dizendo ter havido ressurreição. Ora, a morte é o fim da vida orgânica, entrando a matéria logo em decomposição no grande laboratório da natureza; portanto, se a ressurreição é a volta à vida, o espírito não poderia voltar a animar um corpo já entrado em putrefação. Logo, se Jesus voltou à vida é porque ainda não havia morrido.

Esta hipótese é baseada, quando mais não seja, num velho manuscrito (pergaminho) encontrado em uma biblioteca de vetusto edifício habitado outrora por monges gregos, que vamos analisar, por termos à mão uma tradução feita em 1863 por D. Ramée, de latim para alemão, e em seguida para francês.

Trata-se de uma epístola (carta) enviada por um superior da Congregação dos Essênios, contemporâneo de Jesus e testemunha ocular dos acontecimentos com ele relacionados, nos quais tomou parte ativa. Essa carta foi dirigida de Jerusalém ao superior de idêntica comunidade de Alexandria, para esclarecer pontos que a lenda então, e a exaltação mística, já haviam adulterado tornando-os confusos.

Não entramos aqui em detalhes sobre as dificuldades que houve em copiar este documento encontrado por um membro da Sociedade Comercial da Abissínia, pois o primeiro inimigo da verdade foi um missionário que, por acaso, se achava presente quando se iniciou a decifração e cópia do velho pergaminho; esse missionário, num ardor fanático e ortodoxo, tentou destruir o precioso documento, mas, por felicidade, apenas conseguiu rasgar ou inutilizar um pequeno fragmento.

Mais tarde, o sábio arqueólogo que fez tão interessante descoberta, graças à proteção e influência de alguns negociantes abissínios, conseguiu fazer a cópia desejada e enviá-la para a França, e é graças a ela que temos alguns esclarecimentos interessantes e bem mais verossímeis do que a lenda evangélica.

Confessa o autor dessa carta que os milagres atribuídos a Jesus, e de que já se falava bastante, estavam “sensivelmente exagerados e levados até o maravilhoso e inconcebível pela exaltação dos crentes”. E é por isso que se propunha a reduzir tudo às proporções exatas, “vistotratar-se de uma entidade que fora membro da ordem”, e fazia-o com a autoridade que lhe dava a circunstância de tudo ter presenciado. As palavras que citamos entre aspas são as que se encontram no texto do documento que temos em mãos.

Declara o autor da carta que Jesus, como João, era essênio, pertencendo um e outro à Congregação existente ao pé do Monte Cassiu, onde José, Maria e Jesus se haviam refugiado antes, por ocasião da ida ao Egito, por cuja hospitalidade José fizera o voto de consagrar o menino à ordem em sinal de reconhecimento.

Depois de vários acontecimentos que seria fastidioso enumerar aqui, relata que mais tarde José, Maria e Jesus foram para Jerusalém para fugirem à pressão que Arquelau fazia sobre a Galiléia; de entradas triunfais não se encontra vestígio de citação alguma nessa carta que estamos analisando.

Jesus, que então já era adulto, impulsivo e ardoroso propagandista da pureza de costumes, logo se tornou malquisto dos fariseus que resolveram perdê-lo, não obstante os esforços de amigos influentes e secretamente filiados à ordem. Foi preso e condenado, tendo os romanos colocado na cruz o dístico que o dava como Rei dos Judeus, em quatro idiomas, procurando desta forma ridicularizar o Sanedrin e os fariseus. 

Já crucificado, quando sentiu sede foi, por um iniciado secreto, embebida uma esponja em matéria narcotizante, de acordo com instruções prévias de José de Arimatéia e Nicodemos, chegando-se com uma cana comprida aos lábios de Jesus que absorvendo o líquido desmaiou. Foi ainda devido à influência destes poderosos judeus que não se quebrou as pernas dele como foi feito aos demais, porque todos o deram como morto, menos os que estavam ao par do segredo.

Retirado o corpo da cruz com autorização de Pilatos, foi levado para um horto de propriedade essênia e depositado num túmulo já preparado, onde à noite, por meio de ingredientes preparados pelo próprio autor da carta de que nos estamos ocupando, foi reanimado e levado para casa de amigos que iam proceder ao seu restabelecimento completo.

E, de madrugada, um noviço essênio, envergando a túnica branca que era a insígnia do grau a que pertencia, foi ao túmulo para de lá retirar as faixas em que o corpo tinha sido envolvido e que podiam denunciar tudo devido à matéria cicatrizante de que estavam impregnadas; os soldados romanos que se achavam próximos tomaram o jovem por uma entidade sobrenatural e veio daí a origem do anjo que aparecera junto ao túmulo, história que depois foi aumentada ao sabor da fantasia, pois outros irmãos essênios foram ainda ao horto durante a madrugada e manhã para avisarem amigos e discípulos que por lá aparecessem de que poderiam reencontrar Jesus na Galiléia.

Depois de muitas peripécias descritas pelo autor da carta a que estamos fazendo referência, já mais restabelecido, Jesus pôs-se a caminho para a Galiléia, mas ainda muito fraco pelas emoções e resquícios dos sofrimentos físicos. Viajava apenas de noite, não só por precaução, mas também por ser mais ameno e propício o clima noturno, acompanhado por Maria de Magdala, que não se conformou em separar-se dele um só instante, a qual era também já uma iniciada essênia. De longe iam os dois vigiados por José de Arimatéia e Nicodemos que se tinham oposto à viagem dado o estado de fraqueza de Jesus, e receavam por ele.

Todos os cuidados, porém, foram inúteis, e Jesus sucumbiu após alguns dias de viagem, rompendo a sua alma boa os liames da matéria de forma suave, para evolar-se para o infinito, sendo o corpo inumado perto do Mar Morto. Como tudo isso aconteceu em segredo, conhecido apenas por alguns iniciados, a lenda da ressurreição tomou vulto e espalhou-se para o que muito concorreu a circunstância de Jesus não ter sido visto mais pelo vulgo.

Como se deduz, foram os próprios soldados romanos que concorreram para criar-se a lenda da ressurreição, mais tarde aceita empiricamente, e hoje tida como dogma infalível.Não é pois só a Igreja que pode instituir dogmas; a soldadesca romana também criou esse que perdura até hoje.

Tudo o que se encontra na epístola essênia de que acabamos de fazer citação pode ser autêntico, ou não. Mas, o que não se pode negar é que tenha visos de verossimilhança. É mais aceitável do que a lenda evangélica, mais ainda do que o tal dogma da ressurreição que acabamos de ver que foi criado por soldados romanos e não pela Igreja. A Santa Sé que tenha paciência, mas esta é que é a verdade; teve precursores na rendosa indústria dos dogmas.

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Autor: Américo Correa Marques



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