sábado, 18 de junho de 2016

A SERENIDADE

A serenidade é um atributo que poucos possuem, apesar de ser indispensável à criatura, na sua vida de relação. Serenidade, exprime domínio próprio, controle dos nervos, força de vontade desenvolvida. A princípio, há necessidade de por em prática, com esforço consciente, a força de vontade, aliada ao domínio próprio, para que ela se manifeste, evitando-se, neste caso, aqueles estados de alma que, manifestando uma aparente serenidade, escondem uma tempestade interior. Com o tempo, com a compreensão amadurecida, com o exercício mental disciplinado, com o desenvolvimento da espiritualidade, a ação serena torna-se uma segunda natureza, passa a fazer parte da individualidade, da estruturação psíquica, e revela-se espontaneamente, sem o menor recurso imperativo.

Na arte de meditar, é a serenidade que faz o raciocínio trabalhar, plenamente, e formar corrente favorável à solução dos problemas, sendo, por essa razão, imprescindível. Todos, na vida, precisam meditar, pois aquele que melhor aprender a técnica da meditação, é que se mostra mais apto a vencer as dificuldades que se lhe antepuserem.

Freqüentemente são chamadas à razão as criaturas que se afobam diante do nada, que se exasperam com ninharias e se afligem com as criações do próprio pensamento. Ao procederem de modo oposto à serenidade, desgastam-se essas criaturas animicamente, envelhecem prematuramente, alvoroçam o ambiente, criam o desassossego em torno de si mesmas e provocam estados intranqüilizadores.

A serenidade não significa impassividade, mas, ao contrário, o meio ativo de se dar solução certa, ao menor tempo, a qualquer imprevisto que se manifeste. A serenidade é dom desenvolvido do cabedal espiritualista. O Mestre Nazareno ofereceu os mais edificantes exemplos de serenidade em todos os seus atos, numa clara demonstração de que esta prática participa, como fator integrante, dos métodos da espiritualidade.

Ninguém deve querer arvorar-se em palmatória do mundo, para corrigir as falhas de todos. A evolução se processa paulatinamente, pelo esclarecimento. Uma vez feita, com consciência e serenidade, a parte de cada um, não se justifica que se venha a perder a calma pela morosidade dos retardatários. Mais vale uma admoestação oportuna, amiga e concludente, do que uma áspera reprimenda, entrecortada de expressões contundentes. É especialmente pela serenidade, que a criatura se habilita a prestar concurso mais valioso a quem dele necessitar. Os que militam na escola da serenidade não são capazes de perturbar a sua paz interior, alcançada numa longa jornada de amadurecimento [...], para voltar-se contra o seu semelhante desajustado ou incapacitado, e humilhá-lo na sua inferioridade.

Os que se exercitam para a conquista da serenidade devem contar até dez ou até cem, antes de tomarem uma decisão provocada pelo fervilhar da mente exaltada. Esta prática pode livrar muitos de tomarem atitudes precipitadas, incorretas ou injustas, que depois lhes tragam remorsos. Num curso escolar, não é admissível que o aluno mais adiantado perca a calma, quando não
obtém respostas certas de um aluno de classe inferior sobre matéria de currículo superior, por estar este, portanto, acima de sua capacidade de apreensão. [...]

É bem certo que há ocasiões em que é difícil conservar a serenidade diante de cenas que se desenvolvem [...], mas elas, também precisam ser enfrentadas serenamente nada impedindo, no entanto, que se empreguem energia e ação decisivas, toda vez que se seja solicitada a proceder dessa forma, como única maneira de restabelecer a harmonia, a ordem, a disciplina e o respeito.

A serenidade concorre para a longevidade, para um melhor estado de saúde, para uma acertada deglutição dos alimentos, para dar bom trato ao raciocínio, para reter na memória as lições aprendidas, e para poder atrair-se melhor apoio espiritual, nos momentos precisos. A importância da serenidade não foi, ainda, bem proclamada, apesar de ser assunto que precisa ser posto, constantemente, em foco, pela sua natureza de ordem espiritualista, num mundo, como o planeta Terra, em que quase só o materialismo impera. [...]

Por não ter contra-indicação, a serenidade deve ser sempre considerada como uma atitude recomendável e digna de ser exercida constantemente, não sendo necessário ficar adulto para isso. A criança, desde cedo, precisa saber o que é a serenidade, o que representa e o que vale. Bem assimilada essa virtude, no começo da existência, os frutos, mais tarde sazonados, são numerosos e de alto rendimento. [...] Logo, se um dos objetivos no processo ascensional é conquistar a serenidade, então, racionalmente, todos os esforços deverão ser empregados para que, quanto antes, seja ela introduzida no sistema estrutural da vida humana.

É comum a criatura empenhar-se pela obtenção de coisas supérfluas, de duração efêmera ou temporária, deixando de parte, como se nenhum valor tivessem, riquezas eternas, de qualidades insuperáveis, e tesouros indestrutíveis, portadores de ventura e felicidade inigualáveis que, como dizia Jesus, nem a traça nem a ferrugem podem consumir; a serenidade é um desses valores esquecidos, desprezados e abandonados à margem da estrada da vida.

Os educadores que dispõem do dom da serenidade, estão melhor habilitados a exercer o seu magistério, por não transmitirem aos adolescentes o nervosismo que gera a irritação incontrolada, ante a exuberância de vida manifestada na infância e na mocidade. Assim como o nervosismo é transmissível, com as suas inconveniências e prejuízos, a serenidade também é induzível, com benéficos resultados.

Nenhuma dúvida deve pairar no espírito dos seres acerca das vantagens numerosas resultantes do cultivo espontâneo da serenidade. Cada vez que a solução de um problema atravessar o crivo da serenidade, a melhor fórmula será indubitavelmente adotada, dentro dos apurados recursos com que contam as criaturas serenas. Se a solução não for sempre cem por cento ideal, restará a convicção de haverem sido empregados os meios mais eficazes para alcançar o fim, e, conseqüentemente, nenhuma intranqüilidade poderá depois perturbar a paz. [...]

É de grande alcance ajustar-se a criatura aos postulados que lhe dêem segurança na maneira de agir, segurança que se exprime na certeza ou na convicção de que as suas atitudes estão certas, e certas estarão, realmente, se buscar inspiração para os seus atos na fonte inexaurível do conhecimento [...].

A ponderação e a moderação aliam-se à serenidade para realizar um mesmo objetivo. O mundo é espinhoso e agreste, exigindo, por isso, a maior cautela. A ânsia de enriquecer depressa, provoca no agente um ímpeto de agir precipitadamente, e é quando se verificam grandes quedas. A paz e a tranqüilidade de espírito convidam à serenidade, por onde se vê que esta virtude está sempre envolta por uma série de outras virtudes, que consolidam a posição da criatura na sua trajetória terrena, em bases de segurança e firmeza.

A serenidade está presente na estrutura espiritual de cada indivíduo. Apenas precisa revelar- se, como os demais atributos, mas não se revelará enquanto a vontade não for posta em ação. Vale, pois, estimular essa vontade, para tal fim, desde que bem se compreenda a sua finalidade. [...]

Assim se verifica que a humanidade se divide em duas classes: a dos adormecidos, e a dos despertos. Estes, em fileiras de ação construtiva e elevada, querem aprender e pôr em prática as lições espirituais, e são, por isso, os que desfrutarão, mais cedo, os grandes benefícios que lhes conferem tais diretrizes; os outros, são os retardatários impenitentes, os que dormem exaustos pelas margens do caminho, depois de procurarem, em vão, com recipientes exíguos, alimentar de novos contingentes etéreos, o mar fantástico das ilusões.

-----------------

Autor: Luiz de Souza



Nenhum comentário: