sábado, 4 de junho de 2016

A RACIONALIDADE

Richard Dawkins e outros perguntam quem criou Deus. Nesse ponto, claramente, teístas e ateístas podem concordar sobre uma coisa: se algo existe, deve ter havido algo que o precedeu, que sempre havia existido. Como essa realidade eternamente existente poderia ter surgido? A resposta é que ela nunca "surgiu". Faça sua escolha: seja Deus ou o universo, alguma coisa sempre existiu.

É precisamente neste ponto que o tema da racionalidade volta ao primeiro plano. Contrariamente aos protestos dos ateístas, há uma grande diferença entre o que teístas e ateístas afirmam sobre essa entidade que sempre teria existido. Os ateístas dizem que a explicação para o universo é a de que simplesmente ele sempre teria existido, mas não conseguimos explicar como esse estado eternamente existente teria surgido. Esse seria um fato inexplicável e deveríamos aceitá-lo como tal. Os teístas, no entanto, são determinados em afirmar que, em última análise, Deus não é algo inexplicável: a existência de Deus é inexplicável para nós, mas não para o próprio Deus.
Tal existência eterna de Deus deve ter sua própria lógica interna e visível, porque só pode haver racionalidade no universo se ela estiver baseada em uma racionalidade definitiva e maior. Em outras palavras, fatos singulares tais como nossa capacidade de entender e explicar verdades, a correlação entre o funcionamento da natureza e nossas descrições abstratas desse funcionamento — aquilo que o físico Eugene Wigner chamou de eficácia irracional da matemática —, e o papel dos códigos — sistemas de símbolos que atuam no mundo físico —, tais como o código genético e o neuronal, nos níveis mais fundamentais da vida, manifestam, por sua própria existência, a natureza abrangente e fundamental da racionalidade. 

O que essa lógica interior realmente é, não podemos ver exatamente, embora idéias tradicionais sobre a natureza de Deus certamente dêem alguns indícios. Por exemplo, Eleonore Stump e Norman Kretzmann argumentam que o atributo divino da simplicidade absoluta, quando completamente compreendido, ajuda a mostrar por que Deus não pode não existir. Alvin Plantinga afirma que Deus, entendido como Ser necessário, existe em todos os mundos possíveis.

Os ateístas podem responder de duas maneiras: o universo pode ter uma lógica interna motivando sua existência, que não podemos ver, e/ou não precisamos acreditar que tem de haver um Ser (Deus) com sua própria lógica interior para existir. Sobre o primeiro ponto, os teístas afirmarão que não há tal coisa como um "universo" que existe além da soma total de todas as coisas que o constituem, e sabemos, de fato, que nenhuma das coisas do universo tem qualquer lógica interior motivando uma existência sem fim. 

Sobre o segundo ponto, os teístas simplesmente argumentam que a existência da racionalidade que nós inequivocamente percebemos — desde as leis da natureza até nossa capacidade de pensamento racional — não pode ser explicada se não estiver baseada em um substrato definitivo, que não pode ser nada menos do que uma Mente infinita. "O mundo é racional", afirmou o grande matemático Kurt Gödel. A relevância dessa racionalidade é que "a ordem do mundo reflete a ordem da mente suprema que o governa". 

A realidade da racionalidade não pode ser evitada com qualquer apelo à seleção natural. A seleção natural pressupõe a existência de entidades físicas que interagem de acordo com leis específicas e de um código que rege os processos da vida. Falar de seleção natural é assumir que há alguma lógica naquilo que acontece na natureza — adaptação —, e que nós somos capazes de compreender essa lógica.

Voltando ao exemplo anterior, da mesa de mármore, estamos dizendo que a racionalidade fundamental ao nosso pensamento, e que encontramos em nosso estudo de um universo matematicamente preciso, não poderia ter sido gerada por uma pedra. Deus não é um fato bruto, mas sim a Racionalidade definitiva que permeia cada dimensão do ser.

Uma nova, apesar de implausível, proposta à questão da origem da realidade física é a tese de Daniel Dennett de que o universo "cria a si mesmo ex nihilo, ou a partir de algo que é virtualmente indistinguível do nada". Essa idéia foi apresentada com maior clareza por outro novo ateísta, o físico Victor Stenger, que apresenta sua própria solução para as origens do universo e as leis da natureza em Not By Design: The Origin of The Universe, Has Science Found God?; The Comprehensible Cosmos e em God: The Failed Hipothesis.

Entre outras coisas, Stenger oferece uma nova crítica à ideia das leis da natureza e de suas supostas implicações. Em The Comprehensible Cosmos, ele sustenta que essas assim chamadas leis não são impostas "do alto", nem são restrições inerentes ao comportamento da matéria. Elas são simplesmente restrições à maneira como os físicos conseguem formular as afirmações matemáticas sobre suas observações. A defesa de Stenger é baseada em sua interpretação de uma ideia chave na física moderna, a ideia de simetria. De acordo com diversas explicações da física moderna, simetria é qualquer tipo de transformação que preserva inalteradas as leis físicas que se aplicam a um sistema. 

A ideia foi aplicada inicialmente às equações diferenciais da mecânica clássica e eletromagnetismo e, então, aplicada de novas maneiras à relatividade especial e aos problemas da mecânica quântica. Stenger fornece a seus leitores uma visão geral desse poderoso conceito, mas então chega a duas conclusões incoerentes. Uma delas é a de que os princípios de simetria eliminam a ideia de leis da natureza, e a outra é a de que o nada pode produzir algo porque "o nada" é instável! De forma impressionante, Fearful Symmetry, um livro de Anthony Zee, uma autoridade em simetrias, usa os mesmos fatos reunidos por Stanger para chegar a uma conclusão muito diferente:

"Simetrias têm tido um papel cada vez mais central em nosso entendimento do mundo físico... Físicos fundamentais são sustentados pela fé de que o desígnio definitivo é coberto de simetrias. A física contemporânea não teria sido possível sem simetrias para nos orientar... À medida que a física se distancia cada vez mais da experiência cotidiana e fica mais próxima da mente do Planejador Supremo, nossa mente é puxada para longe de seus atracadouros mais familiares... Eu gosto de pensar em um Planejador Supremo como definido por simetria, um Deus Congruente."

Stenger argumenta que "o nada" é perfeitamente simétrico porque não há posição absoluta, tempo, velocidade ou aceleração no vazio. A resposta à questão "de onde vieram as simetrias?", ele diz, é que elas são exatamente as simetrias do vazio, porque as leis da física são exatamente aquilo que se esperaria que elas fossem se viessem do nada.

O engano fundamental de Stenger é bastante antigo e consiste no erro de tratar o "nada" como sendo um tipo de "algo". Ao longo dos séculos, pensadores que consideraram o conceito de "nada" foram bastante cuidadosos em apontar que o "nada" não é um tipo de entidade. O nada absoluto significa a ausência de leis, de vácuos, campos, energia, estruturas, de entidades físicas ou mentais de qualquer tipo — e ausência de "simetrias". O "nada" não tem propriedades ou potencialidades. O nada absoluto não pode produzir algo, dado um tempo infinito. Na verdade, não pode existir tempo no nada absoluto.

O que dizer sobre a ideia de Stenger, fundamental para seu livro God: The Failed Hipothesis, de que o surgimento do universo a partir do "nada" não viola os princípios da física, porque a energia líquida do universo é zero? Essa é uma ideia primeiramente lançada pelo físico Edward Tryon, que afirmou ter demonstrado que a energia líquida do universo é quase zero e que, portanto, não haveria contradição na afirmação de que o universo surgira do nada, uma vez que ele era "nada". Somando-se a energia coesiva da atração gravitacional, que é negativa, e o resto de toda a massa do universo, que é positiva, chega-se a quase zero. Assim, nenhuma energia seria necessária para criar o universo, portanto nenhum criador seria necessário.

Com respeito a essa e outras afirmações similares, o filósofo ateísta J. J. C. Smart aponta para o fato de que a postulação de um universo com energia líquida nula ainda não responde à pergunta de por que, afinal, deveria existir alguma coisa. Smart observa que as hipóteses e suas formulações modernas ainda pressupõem um espaço-tempo estruturado, um campo quântico e leis da natureza. Conseqüentemente, elas não respondem à questão de por que o universo existe, nem encaram a questão sobre se há uma causa atemporal para a existência do universo espaço-temporal.

Torna-se aparente, a partir dessa análise, que Stenger deixa sem resposta duas questões fundamentais: por que as coisas existem, em vez do nada absoluto? E por que as coisas que existem adaptam-se a simetrias ou formam estruturas complexas? Zee lança mão dos mesmos elementos de simetria referenciados por Stenger para chegar à conclusão de que a Mente do Planejador Supremo é a fonte da simetria.

As leis da natureza, de fato, refletem simetrias fundamentais na natureza. E é a simetria, não apenas as leis da natureza, que revela a racionalidade e inteligibilidade do cosmo — uma racionalidade enraizada na Mente de Deus.

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Autor: Antony Flew



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