quinta-feira, 16 de junho de 2016

A HIPÓTESE DA EXISTÊNCIA DE DEUS

A intenção das Palestras Gifford é ter como tema a teologia natural. A teologia natural há muito tempo é entendida como um conhecimento teológico que pode ser estabelecido apenas e tão-somente pela razão e pela experimentação. Não pela revelação, não pela experiência mística, mas pela razão. E essa é, na longa história da espécie humana, uma visão relativamente inovadora. Podemos lembrar, por exemplo, da seguinte frase escrita por Leonardo da Vinci. Em seus cadernos ele diz: “Quem numa discussão aduz autoridade usa não o intelecto, mas a memória”.

Essa era uma afirmação extremamente heterodoxa para o início do século XVI, quando a maioria do conhecimento derivava da autoridade. O próprio Leonardo participou de vários confrontos desse tipo. Numa viagem para uma montanha, nos Apeninos, ele tinha descoberto os restos mortais fossilizados de moluscos que normalmente viviam no fundo do mar. 

Como era possível? 

A sabedoria teológica convencional era de que o grande Dilúvio de Noé tinha inundado os topos das montanhas e levado conchas e ostras para lá. Leonardo, lembrando que a Bíblia diz que o dilúvio havia durado apenas quarenta dias, tentou calcular se esse tempo seria suficiente para levar os moluscos até lá, mesmo que o alto das montanhas tivesse sido inundado. Em qual estado do ciclo da sua vida as ostras tinham sido depositadas? E assim por diante. Ele chegou à conclusão de que isso não era possível, e propôs uma alternativa bem ousada, que ao longo de períodos longuíssimos de tempo as montanhas tinham se erguido dos oceanos. E isso desencadeava uma série de dificuldades teológicas. Mas é a resposta correta, e acho que dá para dizer sem grandes problemas que ela foi definitivamente confirmada em nosso tempo.

Se vamos discutir a ideia da existência de Deus e nos restringir a argumentos racionais, talvez seja útil saber do que estamos falando quando dizemos “Deus”. Isso na verdade não é nada fácil. Os romanos chamavam os cristãos de ateus. Por quê? Os cristãos tinham lá seu deus, mas não era um deus real. Eles não acreditavam na divindade dos imperadores apoteotizados nem nos deuses do Olimpo. Tinham um deus diferente, peculiar. Era muito fácil, portanto, chamar de atéias as pessoas que acreditavam num tipo diferente de deus. E prevalece ainda hoje a ideia geral de que ateu é qualquer um que não acredite exatamente da mesma forma que eu.

Há uma constelação de propriedades em que normalmente pensamos quando, aqui no Ocidente, ou em termos mais gerais na tradição judaico-cristã-islâmica, pensamos em Deus. As diferenças fundamentais entre o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são triviais se comparadas às semelhanças. Pensamos em alguémque é onipotente, onisciente, cheio de compaixão, que criou o universo, que atende a preces, que intervém em problemas humanos, e assim por diante.

Mas imaginem que existissem provas definitivas de algum ser que tivesse algumas dessas propriedades, mas não todas. Imaginem que de alguma forma ficasse comprovado que há um ser que deu origem ao universo, mas que é indiferente às preces ... Ou, pior, um deus que nem se lembra da existência dos seres humanos. É muito parecido com o deus de Aristóteles. Esse seria ou não Deus? Imaginem que houvesse alguém que fosse onipotente mas não onisciente, ou vice-versa. Imaginem que esse deus soubesse de todas as consequências de suas ações, mas que houvesse muitas coisas que ele não pudesse fazer, portanto estivesse condenado a um universo em que seus objetivos não pudessem ser realizados. Quase nunca se pensa sobre esses tipos alternativos de deuses, nem se discute sobre eles. A priori não há nenhum motivo para não serem tão prováveis quanto o tipo mais convencional de deus.

E a questão fica ainda mais confusa pelo fato de teólogos proeminentes como Paul Tillich, por exemplo, que proferiu as Palestras Gifford muitos anos atrás, terem negado explicitamente a existência de Deus, pelo menos como poder sobrenatural. Bem, se um teólogo renomado (e ele não é o único) nega que Deus seja um ser sobrenatural, a questão me parece meio confusa. O espectro de hipóteses seriamente abarcadas pela rubrica “Deus” é imenso. A visão ingênua ocidental de Deus é a de um homem alto, de pele clara, com uma longa barba branca, que fica num trono enorme no céu e que sabe da queda de cada pardalzinho.

Comparem essa visão de Deus com uma bem diferente, proposta por Baruch Spinoza e por Albert Einstein. E a esse segundo tipo de deus eles chamaram Deus de modo bem direto. O tempo todo Einstein interpretava o mundo em termos de o que Deus faria ou não faria. Mas com Deus ele queria dizer uma coisa não muito diferente do que a soma total das leis da física do universo; isto é, a gravitação mais a mecânica quântica mais a teoria do campo unificado mais algumas outras coisas era igual a Deus. E com isso eles só queriam dizer que existe um conjunto de princípios físicos incrivelmente poderosos que parece explicar boa parte do que aparentemente é inexplicável no universo. 

Leis da natureza, como já disse antes, que se aplicam não só a Glasgow, mas a bem longe: a Edimburgo, Moscou, Pequim, Marte, Alfa Centauri, o centro da Via Láctea e os quasares mais distantes conhecidos. O fato de que essas mesmas leis da física se apliquem a todos os lugares é extraordinário. Certamente representa um Poder Maior do que qualquer um de nós. Representa uma inesperada regularidade do universo. Não precisava ser assim. Cada província do cosmos poderia ter suas próprias leis da natureza. Não fica imediatamente claro que as mesmas leis tenham que se aplicar a todos os lugares.

Mas seria uma tolice completa negar a existência das leis da natureza. E, se édisso que estamos falando quando dizemos Deus, então ninguém poderia ser ateu, ou pelo menos ninguém que se diz ateu seria capaz de dar uma explicação coerente sobre por que as leis da natureza são inaplicáveis. Acho que ele ou ela ficariam sob bastante pressão. Portanto, com esta última definição de Deus, todos nós acreditamos em Deus. A definição anterior de Deus é bem mais dúbia. E existe uma grande variedade de outros tipos de deuses. Em todos os casos é preciso perguntar: “De que tipo de deus você está falando, e quais são as provas de que esse deus existe?”

É certo que, se nos restringirmos à teologia natural, não basta dizer “acredito nesse tipo de deus porque foi isso que me ensinaram quando eu era criança”, porque outras pessoas ouviram coisas bem diferentes sobre religiões bem diferentes, que contradizem à dos meus pais. Não dá para todo mundo estar certo. E na realidade todo mundo pode estar errado. É certamente verdade que muitas religiões diferentes são incoerentes entre si. Não é que elas simplesmente não sejam simulacros perfeitos uma da outra; elas se contradizem brutalmente.

Vou dar um exemplo simples; existem muitos. Na tradição judaico-cristã- islâmica, o mundo tem uma idade finita. Contando as procriações do Antigo Testamento, dá para chegar à conclusão de que o mundo tem bem menos de 10 mil anos. No século XVII, o arcebispo de Armagh, James Ussher, fez um esforço corajoso mas totalmente equivocado de fazer a contagem com precisão. Ele chegou à data específica em que Deus teria criado o mundo. Era 23 de outubro de 4004 a. C., um domingo.

Pensem novamente sobre todas as possibilidades: mundos sem deuses; deuses sem mundos; deuses feitos por deuses preexistentes; deuses que sempre estiveram aqui; deuses que não morrem; deuses que morrem; deuses que morrem mais de uma vez; graus diferentes de intervenção divina em assuntos humanos; zero, um ou muitos profetas; zero, um ou muitos salvadores; zero, uma ou muitas ressurreições; zero, um ou muitos deuses. E as dúvidas relacionadas a essas, quanto ao sacramento, à mutilação religiosa, ao sacrifício, ao batismo, a ordens monásticas, a expectativas ascéticas, à presença ou ausência da vida após a morte, aos dias em que se deve comer peixe, aos dias em que não se come nada, a quantas vidas após a morte cada um tem, à justiça neste mundo, ou no próximo mundo, ou em nenhum mundo, à reencarnação, ao sacrifício humano, à prostituição do templo, às jihads, e por aí vai. É grande a variedade de coisas em que as pessoas acreditam. 

Religiões diferentes acreditam em coisas diferentes. É uma caixinha de surpresas de alternativas religiosas. E claramente existem mais combinações de alternativas do que existem religiões, embora existam hoje alguns milhares de religiões no planeta. Na história do mundo, existiram provavelmente dezenas, talvez centenas de milhares, se pensarmos nos ancestrais coletores-caçadores, quando uma comunidade humana típica tinha cerca de cem pessoas. Naquela época havia tantas religiões quantos fossem os bandos de caçadores-coletores, embora as diferenças entre elas provavelmente não fossem tão grandes assim. Mas ninguém sabe, pois, infelizmente, não temos praticamente nenhum conhecimento sobre em que acreditavam nossos ancestrais na maior parte da história da humanidade neste planeta, porque a tradição do boca a boca não é a mais adequada, e a escrita não tinha sido inventada.

Assim, considerando essa variedade de alternativas, uma coisa que me vem à mente é como é impressionante que, quando alguém tem uma experiência religiosa que provoca sua conversão, é sempre para a religião ou para uma das religiões mais comuns em sua própria comunidade. Há tantas possibilidades...

Por exemplo, é muito raro no Ocidente que alguém tenha uma experiência religiosa que leve à conversão para uma religião em que a principal divindade tenha cabeça de elefante e seja pintada de azul. Raro mesmo. Mas na índia existe um deus azul de cabeça de elefante que tem muitos devotos. E não é tão raro assim ver imagens desse deus. Como é possível que a aparição de deuses-elefantes se restrinja à índia e só aconteça em lugares onde haja forte tradição indiana? Por que as aparições da Virgem Maria são comuns no Ocidente, mas raramente ocorrem em lugares do Oriente onde não há tradição cristã pronunciada? Por que os detalhes da crença religiosa não ultrapassam as barreiras culturais? É difícil de explicar, a menos que os detalhes sejam totalmente determinados pela cultura local e não tenham nada a ver com algo de validade externa.

Em outras palavras, qualquer predisposição preexistente à crença religiosa pode sofrer poderosa influência da cultura local, não importa onde a pessoa tenha crescido. E, especialmente se as crianças forem expostas desde cedo a um conjunto específico de doutrinas, músicas, artes e rituais, a coisa fica tão natural quanto respirar, e é por isso que as religiões se empenham tanto em atrair os muito jovens.

Ou então examinemos outra possibilidade. Imaginem que um novo profeta apareça e alegue uma revelação de Deus, e que essa revelação contradiga as revelações de todas as religiões anteriores. De que maneira uma pessoa comum, alguém que não tenha tido a sorte de receber ela mesma uma revelação, tem como decidir se essa nova revelação é ou não válida? 

A única maneira confiável é através da teologia natural. É preciso perguntar: “Quais são as provas?”. E, se elas forem insuficientes, é preciso dizer: “Bem, temos aqui uma pessoa extremamente carismática que diz ter passado por uma experiência conversora”. Não basta. Existem muitas pessoas carismáticas que passam por todo tipo de experiência reveladora. Não dá para todas estarem certas. É possível até que todas estejam erradas. Não podemos depender totalmente do que as pessoas dizem. Temos que olhar quais são as provas.

Gostaria agora de passar para a questão das supostas evidências ou provas da existência de Deus. E me concentrarei principalmente nas provas ocidentais. Mas, para mostrar um espírito ecumênico, começarei com algumas provas hindus, que sob vários aspectos são tão sofisticadas quanto os argumentos ocidentais e certamente mais antigas do que eles.

Uday ana, um lógico do século XI, tinha um conjunto de sete provas da existência de Deus, e não vou mencionar todas; vou só tentar dar uma ideia. E, aliás, o tipo de deus ao qual Uday ana se refere não é exatamente o mesmo, como vocês podem imaginar, que o deus judaico-cristão-islâmico. O deus dele tudo sabe e jamais perece, mas não é necessariamente onipotente e piedoso. Em primeiro lugar, Uday ana argumenta que todas as coisas têm que ter uma causa. O mundo está cheio de coisas. Alguma coisa tem que ter feito essas coisas. E esse argumento é muito parecido com um argumento ocidental ao qual já vamos chegar.

Em segundo lugar, há um argumento não muito ouvido no Ocidente, o argumento das combinações atômicas. É bastante sofisticado. Ele diz que, no princípio da Criação, os átomos tiveram que se ligar para construir coisas maiores. E essa ligação entre os átomos sempre requer a interferência de um agente consciente. Sabemos hoje que isso é falso. Ou sabemos, pelo menos, que existem leis de interação atômica que determinam como os átomos se ligam entre si. Trata-se de uma matéria chamada química. E até se pode dizer que isso se deva à intervenção de uma divindade, mas não que exija a intervenção direta de uma divindade. Tudo que a divindade precisa fazer é estabelecer as leis da química e se aposentar.

Em terceiro lugar, há o argumento da suspensão do mundo. O mundo não está caindo, dá para ver. Não estamos despencando pelo universo, ao que parece, portanto alguma coisa está sustentando o mundo, e essa coisa é Deus. Essa é uma visão bem natural das coisas. Está ligada à ideia de que estamos parados no centro do universo, uma percepção equivocada que todos os povos no mundo inteiro já tiveram. Na verdade estamos caindo a uma velocidade incrível, em órbita em torno do Sol. E todo ano andamos dois pi vezes o raio da órbita da Terra. Fazendo as contas, dá para ver que é extremamente rápido.

Em quarto lugar, há o argumento da existência das habilidades humanas. E ele é bem parecido com o argumento de Von Däniken, de que, se ninguém tivesse nos mostrado como fazer as coisas, não saberíamos fazê-las. Acho que há bastantes argumentos contra isso. E há então a existência do conhecimento oficial, independente das habilidades humanas. Como saberíamos das coisas que estão, por exemplo, nos Vedas, os livros sagrados hindus, a menos que Deus as tivesse escrito? A ideia de que os seres humanos eram capazes de escrever os Vedas, para Uday ana, era difícil de aceitar.

Isso dá uma noção desses argumentos e mostra que existe um desejo humanoarraigado de encontrar uma explicação racional para a existência de um Deus ou de deuses, e também, na minha opinião, demonstra que esses argumentos nem sempre são muito bem-sucedidos. Passarei agora para alguns dos argumentos ocidentais, que talvez todos conheçam muito bem, e se for esse o caso peço desculpas.

Em primeiro lugar, há o argumento cosmológico, que não é muito diferente do argumento que acabamos de ouvir. O argumento cosmológico no Ocidente tem basicamente a ver com a causalidade. Existem coisas por todo lado; essas coisas foram causadas por alguma outra coisa. E assim, depois de algum tempo, deparamos com épocas e causas remotas. Não dá para voltar para sempre, uma regressão infinita de causas, como argumentaram Aristóteles e mais tarde Tomás de Aquino, portanto temos que chegar a uma causa primordial que ela mesma não tenha causa. Alguma coisa que tenha iniciado todas as outras e que não tenha causa ela mesma; ou seja, que tenha sempre estado ali. E essa coisa definitivamente é Deus.

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Autor: Carl Sagan



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