terça-feira, 7 de junho de 2016

A CONSCIÊNCIA

As coisas não estão tão ruins no estudo da consciência, felizmente. Hoje, há uma crescente percepção da percepção. Somos conscientes, e conscientes de que somos conscientes. Ninguém pode negar isso sem se contradizer, embora haja quem negue. O problema se torna insolúvel quando entendemos a natureza dos neurônios. Primeiro, os neurônios não tem nenhuma semelhança com nossa vida consciente. Segundo, e isso é mais importante, suas propriedades físicas não dão nenhuma razão para acreditarmos que eles podem ou que irão produzir consciência. 

A consciência está relacionada a certas regiões do cérebro, mas quando os mesmos sistemas de neurônios estão presentes no tronco do cérebro, não há "produção" de consciência. Na verdade, como o físico Gerald Schroeder observa, não há diferença essencial nos constituintes físicos fundamentais de um monte de areia e o cérebro de um Einstein. Só uma fé cega e infundada na matéria está por trás da alegação de que certas porções de matéria podem, de repente, "criar" uma nova realidade que não tem semelhança com a matéria.

Embora os estudos sobre corpo e mente hoje reconheçam a realidade e o resultante mistério da consciência, Daniel Dennett é um dos poucos filósofos que continuam a negar o óbvio. Ele diz que a questão de se alguma coisa é "realmente consciente" não é interessante, nem exige resposta, e afirma que máquinas podem ser conscientes porque são máquinas que são conscientes!

O funcionalismo, a "explicação" de Dennett para consciência, diz que não devemos nos preocupar com o que cria os assim chamados fenômenos mentais, mas que devemos investigar as funções desempenhadas por esses fenômenos. Uma dor cria uma reação de rejeição, um pensamento é um exercício de solução de problema. 

Nada é para ser considerado um acontecimento particular em algum lugar particular. O mesmo vale para todos os outros supostos fenômenos mentais. Ser consciente significa desempenhar essas funções. Como essas funções podem ser executadas por sistemas não vivos — por exemplo, um computador resolve problemas —, não há nada de misterioso na consciência. E certamente não há razão para irmos além do físico.

Mas o que essa explicação deixa de fora é o fato de que todas as ações mentais são acompanhadas por estados conscientes, nos quais temos percepção do que estamos fazendo. De modo algum o funcionalismo explica o estado de estar consciente, de perceber, o estado em que sabemos o que estamos pensando — computadores não sabem o que estão fazendo. E muito menos nos diz quem é que está consciente, percebendo e pensando. Dennett, de modo engraçado, diz que a base de sua filosofia é "o absolutismo da terceira pessoa", que o deixa na posição de afirmar "eu não acredito em 'eu'".

Alguns dos mais fortes críticos de Dennett e do funcionalismo são, de modo interessante, fisicalistas: David Papineau, John Searle e outros. John Searle é especialmente ríspido: "Se você está tentado a aderir ao funcionalismo, acredito que não precisa de refutação, mas de ajuda".

Ao contrário de Dennett, Sam Harris tem defendido fortemente a suprafísica realidade da consciência. "O problema, porém, é que nada relacionado ao cérebro, quando pesquisado como sistema físico, indica que ele é portador daquela dimensão particular, interior, que cada um de nós percebe como consciência." A conclusão é impressionante: "A consciência pode ser um fenômeno muito mais rudimentar do que as criaturas vivas e seus cérebros, e parece não haver uma maneira de rejeitar essa tese experimentalmente".

Para seu crédito, Dawkins reconhece a realidade, tanto da consciência e da linguagem, como do problema que isso representa. "Nem Steve Pinker nem eu podemos explicar a consciência subjetiva humana, que os filósofos chamam de qualia", ele disse uma vez. "Em seu livro Como a mente funciona, Steve elegantemente aborda o problema da consciência subjetiva, pergunta de onde ela vem e qual sua explicação. 

Então, é bastante honesto para dizer que não sabe. Eu digo o mesmo. Não sabemos. Não compreendemos." Wolpert deliberadamente evita a questão da consciência: "Tenho fugido propositalmente de qualquer discussão sobre a consciência".

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Autor: Antony Flew



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