segunda-feira, 20 de junho de 2016

A COMPREENSÃO

A compreensão das coisas adquire-se pelo hábito da ponderação, e esta resulta da meditação. Quando se deseja ter uma visão clara de qualquer assunto, compreendê-lo bem em todos os ângulos e facetas, é preciso aprofundar o pensamento em seu estudo e esmiuçar todos os pontos obscuros. [...] Há indivíduos compreensivos a quem se pode apresentar uma tese, uma dúvida, uma dificuldade, que será encarada por eles com a simpatia, ao passo que outros são incapazes de aderir com solidariedade ao tema, e, no comum das vezes, arvoram-se em críticos acerbos ou juízes condenadores.

A vida é cheia de problemas, e cada um no seu posto tem de enfrentá-los como puder, muitas vezes com carência de recursos pessoais, por falta de experiência, de tirocínio e de traquejo. As dificuldades alheias não devem ser vistas com indiferença ou pouco caso, quando há solicitação de auxílio feita por quem se vê em situação embaraçosa. A maneira de ajudar, nessa hipótese, prevê, antes de tudo, a necessidade de compreender a verdadeira situação da vítima, sentindo-a como se ferisse a própria carne do solicitado, se ele estivesse colocado naquela emergência. Depois, então, aplique-se o socorro possível.

É indispensável que todos se compenetrem de que os seres pertencem a um mesmo conjunto humano, e, nesse caráter, cada um é uma parte, uma fração desse conjunto, não devendo isolar-se completamente dos problemas alheios, como se não lhe dissessem respeito. Uma simples orientação é, não poucas vezes, um recurso salvador.

É necessário procurar compreender a vida no seu aspecto real e lógico, em que sobressai a interdependência dos seres no âmbito da coletividade. Ninguém pode viver sem a cooperação direta do semelhante. O cooperativismo espontâneo é uma realidade na vida. Veja-se, para exemplificar, que não seria possível manter um hotel se os hóspedes não contribuíssem, cada qual com a sua parte, para sustentá-lo; assim como os restaurantes, as fábricas, o comércio, todos os serviçospúblicos etc. É da contribuição de muitos que os empreendimentos humanos se instalam e progridem.

Uma vez que a associação dos seres é uma conseqüência inelutável da organização da vida no mundo, nenhuma justificativa pode ser encontrada para as tendências de isolação de muitos, com propósitos egoístas. O entendimento dessa unidade faz com que as criaturas se tornem compreensivas e compartilhantes dos esforços de espiritualização. A compreensibilidade acompanha o sentido das leis naturais, por meio das quais todos os fenômenos têm a sua explicação racional.

A criatura compreensiva está disposta a tolerar as falhas que ocorrem por deficiência de aptidões, por insuficiência intelectual, por incapacidade de meios, e aceita a vida com as suas modalidades reais, sem procurar o impossível como solução. Ouve, analisa, pondera, pesa os prós e os contras, ajusta as conveniências às imposições circunstanciais, com o objetivo de atingir a fórmula mais aconselhável.

A capacidade de compreensão é um atributo desenvolvido pelo espírito através de numerosas experiências, tanto positivas como negativas, trabalhadas pelo raciocínio. Nem só os êxitos contribuem para o progresso; os fracassos também. De todas as iniciativas colhem-se lições proveitosas, que serão registradas em atividades futuras. No fim, a soma das experiências produz maior aproveitamento. [...]

Os indivíduos compreensivos são bons conselheiros e encontram a melhor saída para as situações difíceis. Quanto mais depressa se quiser desenvolver essa qualidade, tanto maior deverá ser o empenho da criatura em tornar-se compreensiva. O ser compreensivo chega a entender a linguagem muda, até a dos animais inferiores. Isto porque não se limita ao sentido frio das palavras, mas penetra no íntimo da natureza espiritual, onde descobre o que as palavras não revelam. [...]

Muitas amizades são desfeitas por falta de compreensão. São desentendimentos que surgem, muitas vezes por motivos fúteis, e ressentimentos que nascem de um gesto ou de uma expressão infeliz. Em inúmeras ocasiões, os que se ressentem hoje foram, outrora, autores de ressentimentos.No quadro da compreensibilidade não há lugar para esses caprichos pueris, sem objetividade superior, apenas denunciantes de um amor próprio mal orientado.

Jesus não repeliu as ofensas recebidas, por compreensão, mas não existem outros Cristos na Terra que possam suportar as agressões que sofreu. Foi esse o exemplo por ele deixado e, dentro da capacidade de cada um, faça-se o possível para imitá-lo, lançando mão dos melhores recursos espirituais que se possua. [...]

Para ser compreensivo, é preciso saber dar valor ao sofrimento. [...] Mais felizes serão, no entanto, os seres que atingirem o mais alto nível de compreensão sem precisar sofrer, mas pelo esclarecimento, pelo conhecimento da verdade espiritual, pela espiritualização.

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Autor: Luiz de Souza



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